Why Habits? Sou uma pessoa que segue uma Rotina METÓDICA DE VIDA

Camila Cilento
Melanie Griffith em “Working Girl” NO LOLLA BY CAMILA CILENTO

Quando me contaram que o tema do Lolla desse mês seria “hábitos”, mais precisamente em tom de indagação “Why Habits?”, senti até o meu coração pular uma batida. Eu sou o que aqui eles chamam de “creature of habit”(adoro um termo gringo, esse em tradução livre significa ‘criatura de hábitos’): uma pessoa que segue uma rotina metódica de vida. Mas mais do que uma pessoa que ama rotinas, na realidade eu amo uma definição mais profunda da palavra hábito que diz que essa é uma “maneira permanente ou frequente de comportar-se”. Que poético…

A verdade é que desde cedo percebi que manter uma rotina e ter hábitos fazia da minha vida muito mais organizada e previsível, o que por tabela me faz uma pessoa mais feliz. Affff… Se a gente estivesse numa conversa ao vivo logo ia ter aquela pessoa viciada em astrologia e que ia começar a soltar: “aposto que você é taurina?”. (Não sou…). Astrologia a parte, eu vejo benefícios inquestionáveis em cultivar hábitos. Acho que a vida de uma pessoa que gostaria que o dia tivesse 36 horas rende muito com os hábitos. Aliás, acho que só sobrevivi a minha licença maternidade sem ajuda externa porque criei hábitos e uma rotina desde o dia que saí do hospital.

Bom, não estou aqui para falar das rotinas da maternidade, e sim de alguns hábitos um tanto curiosos que eu ganhei ao mudar para Nova Iorque. Sim, mudar de país te dá a licença poética de mudar todos os hábitos que você quiser sem que o sistema de uma pessoa organizada e metódica entre em transe. Afinal de contas: tem coisa mais divertida do que de repente viver em um filme da Nora Ephron e poder chamar Big Apple de “sua” cidade?!? É um convite para abraçar novos hábitos!

Eu vou de tênis para o trabalho todos os dias, bem no estilo Melanie Griffith em “Working Girl”. Não passo um dia sequer sem abrir o The New York Times e me sinto uma real nova-iorquina toda vez que saio com o caderno imobiliário do jornal debaixo do braço nos finais de semana. Eu baseio todas as minhas escolhas de onde vou, o que vou fazer, onde vou comer, onde vou morar e onde vou trabalhar baseada no mapa do metrô (acho o fim da vida ter que fazer baldeação e só me sinto na minha real essência se estiver indo onde tenho que estar de metrô). Tenho o hábito de dar direções da cidade usando as coordenadas da rosa dos ventos: quem diria que a aula de geografia ia ser tão útil?!?

Aliás, falando em Metrô, eu tenho o hábito de prestar atenção exatamente aonde está cada saída de estação pois gosto de estar no vagão que vai parar exatamente na saída que preciso: não perco nenhum segundo útil do meu trajeto. Esse hábito tem um nome super específico e na próxima vez que você fizer isso vai entender o que é “platforming”. Ahhh isso sem contar que na “minha estação” eu sei exatamente aonde me posicionar na plataforma para estar na frente da porta do carro de metrô quando o mesmo parar (por sinal, não em um e sim em três locais específicos da estação, justamente para poder fazer “platforming” para o meu destino final).

Eu sinto que o meu dia não começa se não peguei um café para viagem e tenho um prazer especial quando me vejo cruzando uma avenida com café em punho, sempre de passos apressados e com pressa. Eu NUNCA andei devagar na vida, mas aqui em NY eu tenho o hábito de estar sempre com pressa mesmo quando não tenho nenhuma hora marcada. Bem no estilo da série “Modern Love” (que por sinal é adaptada de uma coluna de mesmo nome – adivinhem?! – do The New York Times), eu tenho uma relação profunda com o meu porteiro: ele sabe mais da minha vida que a minha mãe e é praticamente o meu melhor amigo. Depois de muito resistir, entendi o porquê de 7PM ser um horário nobre para se jantar, e quase morro quando um amigo brasileiro sugere fazer uma reserva para às 9:30 da noite. Aliás, tenho o hábito de mentir o horário da reserva para 1 hora mais cedo se o amigo for brasileiro: já que eles nunca chegam na hora e a gente só pode sentar quando todos da reserva estiverem lá.

A medida que fui descendo a lista e colocando todos os meus “hábitos” nova-iorquinos no papel uma pergunta ecoou na minha mente: seriam hábitos na realidade manias? Ou quando os hábitos são saudáveis eles são hábitos mesmo? E os mesmos, se tornam manias somente quando parecem nos incomodar? Não sei… Mas tenho a sensação que o que amo não são os meus hábitos nova-iorquinos, e sim todas as manias que me fazem ter a sensação de pertencer à essa cidade. Tive a idéia de escrever sobre as minhas rotinas nova-iorquinas justamente exercendo uma das minhas melhores manias: atravesssando a Houston Street e me sentindo uma real “New-Yorker” por saber pronunciar o nome dessa rua da maneira “certa”. Vamos todos repetir que Houston Street se pronuncia “Halston” como o designer e não “Houston” como a cidade do Texas? Amém.

 

Melanie Griffith em “Working Girl” NO LOLLA BY CAMILA CILENTO
Melanie Griffith em “Working Girl”

5 ARTIGOS PARA LER NO FINAL DE SEMANA

  1. “The End of Mom Guilt”, Laura Bazelon para a The Atlantic
  2. “The one about Bridgerton (and opinions in general)”, da Hitha Palepu em seu Newsletter “5 Smart Reads”
  3. “How everyone got so lonely”, Zoe Heller para a The New Yorker
  4. “‘I didn’t feel like going, but I’m glad i did’: my motto of the moment”, Michal Leibovitz para NY Times
  5. “What was it about Michael Douglas?”, Bilge Ebiri para a NYMag

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