TGIF: Procura-se Amigos para a Vida Toda

Camila Cilento

Esta semana ao me preparar para uma visita muito esperada ao Brasil, me peguei refletindo sobre os meus amigos. Amizade é uma das coisas mais importantes da vida. Diria que meus amigos são uma extensão da minha família, eles me fazem recordar de onde vim e me ajudam a celebrar para onde fui. São também ótimos pontos de referência quando preciso de uma luz guia para retornar. Diria que essa referência de passado, presente e futuro é uma das coisas mais belas das amizades que tenho. Esses são os meus amigos da vida toda.

Quando mudei para Nova Iorque pela primeira vez, durante os meus 20 anos, eu estava em uma fase muito expansiva da vida. Raramente conseguia sentar em uma mesa com menos de 10 pessoas e perdi as contas de quantos amigos eu achei que fiz. Nessa fase da vida a gente tende a contar os amigos em dúzias e se esquece que as reais amizades requerem dedicação e tempo para serem nutridas e terem um quê de longo prazo. Todos são seus “super amigos”: termo que virou até chacota entre as minhas amigas da vida toda.

Ao final de cada jantar ou balada, aonde conheci mais uma porção de “super amigos”, entre muitos beijinhos e abraços já entrava no táxi falando a famosa expressão: “vamos combinar”. Tão logo o táxi acelerava o “vamos combinar” ficava lá como uma promessa esquecida na mesa do jantar entre copos vazios e guardanapos manchados de batom. E foi assim que percebi que a vida é assim mesmo: uma mistura de “super amigos” e de amigos da vida toda.

São esses amigos da vida toda que me fazem literalmente chorar de rir ao lembrar do passado. Lágrimas de felicidade tão abundantes que em um jantar recente tive até que usar o elegante guardanapo de linho belga da mesa para enxugá-las. São também esses amigos que mesmo distantes lá estão presentes em todos os momentos que preciso. São eles que celebram comigo suas boas novas, mas que também não fazem cerimônia ao pedir o meu ombro quando precisam de um carinho. São amigos que me conhecem como ninguém e que mesmo com o budget simbólico do presente do amigo secreto conseguem sempre me emocionar. Fácil é comprar um presente sem intenção com um orçamento generoso, mas quero ver conseguir presentear com poucos reais e ainda assim tocar o coração toda vez. Mais precisamente são essas amigas que te dão o aval para cortar o vestido de noiva tão sonhado com um estilete (e diga-se de passagem já depois de muitas taças de champagne) no banheiro do seu casamento só para poder dançar juntas livremente. Essas são minhas amigas da vida toda, amigas a quem não sei dar adeus.

Agora diante dos meus 30 e muitos anos e certa de quem são esses amigos verdadeiros, o jogo da vida veio com uma carta bônus: pule para a casa da Grande Maçã. Lá estava eu partindo novamente para Nova Iorque e criando uma distância física não intencional dos meus amigos da vida toda. Ali sem saída e distante de todos abri o processo seletivo mais uma vez. Minhas amigas da vida toda que me perdoem, mas em terras estranhas todos precisamos de acolhimento.

Essa equação porém não é nada simples. Entre mais uma porção de novos “super amigos”, me vi inúmeras vezes abraçada com meus planos de longo prazo e dando adeus para mais amigos com quem já tinha tido tempo de criar laços para uma vida toda. Dói toda vez que isso acontece porque sei que nutrir relacionamentos assim virtualmente é um desafio sem igual.

Até que uma sábia amiga, que praticamente me entrevistou em relação às minhas intenções me disse a seguinte máxima: eu só aceito CVs de pessoas com moradia permanente na cidade e planos de longo prazo. Já traumatizada por tantos amigos que partiram e o desafio de começar tudo de novo, ela chegou à conclusão que só fazia sentido procurar novos amigos que tivessem planos genuínos de ficar. Dividindo o tempo escasso entre todos os compromissos da vida, não fazia mais sentido ter dúzias e mais dúzias de “super amigos”. Ao ouvir isso me senti representada: nessa fase da vida eu quero mesmo é me cercar de amigos da vida toda. Amigos de quem não me despeço com um “vamos combinar” e sim com um famoso “te vejo amanhã para almoçar”.

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