coluna-camila-cilento-lolla-04-fevereiro-2022
Foto: Pinterest

Recentemente escrevi sobre como tenho trabalhado para perdoar os últimos dois anos pelo o que eles não foram. E não tem sido um processo simples: apesar de ter vivido muita coisa muito especial nesse período, ainda é duro pensar em tudo o que não vivi.

Lembro que quando a pandemia começou tivemos discussões com o time em que eu trabalho e na média as pessoas achavam que tudo ia passar em 2-3 meses. Aliás acho que a previsão mais longa que discutimos na época foi Setembro de 2020: quando lembro disso não consigo conter o riso nervoso de quão errados estávamos e de quão complexo viver os últimos 2 anos foi.

Enfim, tudo isso para dizer que parte do mecanismo de defesa da minha mente foi tentar olhar o copo meio cheio e focar nas coisas que realmente estavam me fazendo feliz nesse período. Funcionou mais ou menos assim: o pensamento vinha cheio de saudades e descontentamento, minha mente logo começava um processo de reciclagem varrendo o pensamento para debaixo do tapete e o substituindo por algo minimamente mais positivo e confesso que esse mecanismo foi extremamente eficaz no primeiro ano da pandemia. Até que o verão passado chegou e me relembrou como tem certas interações que são absolutamente insubstituíveis.

Nada substitui o que eu senti ontem ao assistir o público cantando em uma só voz a música “Better Man” do Pearl Jam por enquanto que o Eddie Vedder e sua nova banda The Earthlings dedilhavam seus instrumentos.

Nada substitui o encontro emocionante do Benji com a minha mãe com direito a um abraço apertado em pleno saguão de chegada do aeroporto.

Nada substitui a felicidade da minha irmã ao ver que estava nevando lá fora e reunindo todos nós para sair correndo para brincar no quintal da casa que alugamos no Upstate no Natal.

Nada substitui aquele emaranhado de mãos e copos com drinks dos mais variados correndo para brindar no centro de uma mesa e nem substitui as trocas de olhares logo depois que os copos se encontram.

Nada substitui a sensação da água do mar chegando nos meus pés depois de tempos que não ia à praia (será que posso pular as 7 ondinhas com atraso em fevereiro?).

Nada substitui o barulho da neve debaixo dos meus esquis e nem a emoção que é perceber que ainda sei coordenar todo aquele equipamento e descer do lift sem cair (sou canhota esse momento é sempre tenso, hahah..).

Nada substitui a alegria de ver meu filho descendo num trenó com primos que ele nem sabia que tinha…

Escrevi muito recentemente sobre o tempo que passou e sobre não deixar ele passar em vão, mas tem outra lição que achei que valia um textão: vida ao vivo e em cores é insubstituível. A interação humana com o mundo é algo que nenhuma tela ou óculos de realidade virtual consegue emular, elas ajudam a encurtar distâncias quando não temos outra opção, mas não substituem ouvir a música ao vivo, o abraço apertado, o geladinho dos flocos de neve encostando no rosto, o estalo dos copos se encontrando, o friozinho da barriga ao descer uma montanha de esquis, a sensação do mar e da areia tocando os seus pés, e também não substitui a pura alegria de estarmos juntos vivendo tudo isso.

 

5 Artigos Recomendados pela Cami Cilento

1. “Your attention didn’t collapse. It was stolen”, Johann Hari para The Guardian: um artigo bem soco no estômago e que foi o ponto de partida para o que eu escrevi na coluna de hoje.

2. “What scares the world’s most daring olympians”, do NYTimes: eu amo esportes de inverno e fico extremamente empolgada com as olimpíadas de Inverno que começaram hoje na China. Falei sobre esse projeto incrível do NYTimesno meu IG essa semana e fiquei de dividir o link aqui. Ele cobre um assunto crucial quando a gente olha esses atletas voando pelo céu com seus esquis e snowboards: o medo de se lesionar.

3. “Eileen Gu is trying to soar over the geopolitical divide”, John Branch para o NYTimes: ainda no tema olímpico, amei ler esse perfil da atleta Eileen Gu. Ela é uma dessas mulheres incríveis que equilibra várias carreiras: não a conhecia antes de ler o artigo, e um dos adendos do artigo anterior é também um ensaio escrito por ela sobre como o medo é viciante.

4. “And just like that… I’m defending the Sex and the City Revival”, Chris Murphy para a Vanity Fair: esse é o artigo sobre o revival tão comentado de SATC que eu gostaria de ter escrito. Concordo em gênero, numero e grau: em tempos em que todos de nós temos tanta opinião sobre tanta coisa, eu achei esse artigo especialmente bem escrito. Como a autora escreve: “envelhecer é justamente aceitar a vida que você tem ao invés de seguir desejando a vida que você poderia ter”, e acho que a série fala justamente sobre isso. “Não posso deixar de ficar mais feliz que ‘And just like that’ existe, com todas as suas falhas, do que chateada que o show não correspondeu às nossas expectativas mais loucas”. Dito.

5. “Is old music killing new music?”, Ted Gioia para The Atlantic: eu que amo uma música antiga e tenho playlists repletos dos hits das décadas passadas fiquei super intrigada com esse artigo. Super bem escrito ele fala sobre as dificuldades da industria da musica e da falha institucional em se descobrir e propagar novas músicas.

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