Quando eu perdi meu cartão de crédito.

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Falar mal da hegemonia da tecnologia em nossas vidas (usando a própria para fazê-lo) virou clichê, senso comum.  Mas apesar dos pesares, todo mundo concorda: o lado bom da tecnologia é a conveniência. Pode ser o diabo, mas pelo menos facilita nossa vida. Já faz algum tempo que aposentei minha maxi-bolsa e notei que não fui a única.  Hoje em dia não é necessário sair com nada além de um celular e um cartão de crédito (este último já com seus dias contados). Tudo muito incrível, moderno e conveniente, até o dia em que você resolve perder seu cartão, que por reverência à deusa da praticidade, é de crédito, débito, caixa eletrônico e único responsável por todo o seu poder aquisitivo.  Cartão devidamente bloqueado e você terá um pequeno problema de liquidez até que receba sua segunda via em (eternos) 10 dias – já que a senhora foi muito relapsa e não cadastrou sua biometria para poder retirar um provisório no caixa da agência.

Além do problema de liquidez, você se arranjou também uma questão de locomoção. Táxi? Não tenho dinheiro. Uber? Patinete? Bicicleta? Não até que eu volte a ter crédito no mercado. Justo agora que eu tenho que ir ao supermercado, já que o Rappi, assim como todos os outros aplicativos de entrega, também se recusam a me atender. 

Falando em Rappi, fiz uma assinatura prime recentemente e sigo tentando decifrar o modelo de negócios desta joia rara da modernidade.  Alguém me explica como posso pagar R$ 12,50 reais por mês e poder pedir o que eu quiser, quando eu quiser, a hora que eu quiser e sem pagar nenhuma outra taxa?  Aprendi muita coisa durante minha formação em Business, mas ainda tenho dificuldade de entender o modelo do “quanto mais prejuízo, melhor”. Culpa das aulas de Finanças que me deixaram muito quadrada e tiraram todo o meu poder de abstração – e meu potencial de fundar o próximo unicórnio latino-americano. Deu vontade de comer pãozinho francês no café da manhã de domingo? Pede para o Rappi passar na padaria! Deu dor de barriga? Pede para o Rappi passar na farmácia!  Está sentada na privada e acabou o papel higiênico? Não há mais motivo para entrar em pânico, basta chamar o seu amado e infalível assistente pessoal! Vai ver é um negócio de cunho menos financeiro e mais social. Quem poderá negar que estamos ajudando a movimentar a economia, gerando emprego e fomentando a saúde, colocando tanta gente para pedalar desenfreadamente de um lado para o outro? 

Mas o lado bom dessa pane passageira na conveniência da vida moderna é lembrar de certos costumes arcaicos que ainda nos trazem prazer.  No dia seguinte ao que perdi o cartão, terminei de ler meu livro, e é lógico que o Kindle também se recusou veementemente a baixar um novo título para mim (não estou dando conta de lembrar todos os sites e aplicativos que terei que atualizar quando chegar meu novo número de cartão). Mas nem por isso me deixei abater!  Não foi preciso taxi, Uber ou patinete para ir a uma biblioteca que fica dentro do clube que frequento. Lembrei que este programa consegue me trazer ainda mais paz do que ir ao spa que fica logo ali pertinho.

O silêncio profundo, a sensação de que o mundo está girando um pouquinho mais devagar, a difícil escolha dentre milhares de obras que já passaram pelas mãos de tanta gente, de tantas gerações. Não há nada mais remoto, sustentável ou conveniente!

 

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by Shelly Bronstein

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