imrs.php 2 e1610372427238 - Podem Politica e Moda Navegar Juntas? Uma Investigação.

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Durante o fim de semana, uma pauta mais leve depois da semana terrível que passamos logo na estreia do ano, foi outro palco de debate. Madame Vice President, Kamala Harris, a primeira mulher a ocupar o cargo de VP dos Estados Unidos, vai ser a capa da Vogue US de Fevereiro e a internet ficou maluca. Já faz alguns anos que a Vogue US começou a se posicionar politicamente, e durante o governo Obama o posicionamento da Editor in Chief Anna Wintour passou a pautar a revista, um movimento que não existia há pouco tempo nas lifestyle magazines. Isso é incrível e acompanha as novas gerações de gente que consome moda e gosta de acompanhar o que acontece no mundo, tem opinião, se posiciona e sabe que não se anula por se importar com a maneira como se apresenta para o mundo. Arrisco dizer que qualquer pessoa que considera moda hoje em dia apenas fútil, está perdendo uma das divertidas formas de autoexpressão e posicionamento e acima de tudo, não consegue reconhecer a importância da historia na sociedade.

A controvérsia com a capa da VP Kamala Harris é porque a capa escolhida pelo time da Vogue para a versão impressa ficou abaixo das expectativas do que as pessoas acham que deveria ser uma capa com a primeira VP mulher e negra dos Estados Unidos. A Vogue tomou cuidado para contratar um time de POC (people of color) para a matéria e capa, o fotógrafo Tyler Mitchell (que também foi o primeiro fotografo negro a clicar uma capa para a Vogue, só em 2018, com a Beyoncé), Gabriella Karefa-Johnson a editora responsável pelo shoot e Alexis Okeowo, quem escreveu o texto. Muito provavelmente essas decisões foram tomadas juntas com o time de Harris. A Vogue produziu duas fotos para a capa e escolheu a de fundo rosa e verde para a versão impressa, pegando o time da VP Kamala Harris de surpresa, decisão que não foi tomada junto com o time da Harris.

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Kamala Harris Converse All Star signature sneakers

O Washinton Post disse que quem escolheu os próprios looks para ambas as fotos foi a própria Kamala, na capa verde e rosa (cores da sorority dela Alpha Kappa Alpha) ela apareceu de terninho preto, jeans preto e um Converse All Star preto, diria que seu signature sneakers. Ela aparece relaxada, relatable, uma mulher comum que chegou ao segundo maior cargo politico do governo americano no ano que o Black Lives Matter tomou proporções urgentes e necessárias.

De fato, falta a formalidade percebida e direcionada a pessoas que ocupam cargos como o dela. Mas talvez tenha sido justamente isso que a Vogue quis perpetuar? Colocaram a Kamala no ambiente dela, com o background da sorority representando o caminho que ela traçou para chegar lá e no look que ela fica mais confortável. É indiscutível que uma mulher jovem consegue se identificar muito mais com aquela imagem do que com a imagem da outra capa, onde a Kamala aparece com um terninho azul, braços cruzados e uma bandeira dos Estados Unidos como broche, super corporativa, e adequada para o cargo, mas que não gera a discussão, não quebra paradigmas, é apenas o que as pessoas estavam esperando.

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Talvez tenha faltado sensibilidade para o time da Anna Wintour em antecipar que apesar de não caber uma super glamourização da Kamala Harris, uma foto mais powerful daria para outras mulheres negras mais empoderamento, como sugeriu Robin Givhan. E talvez falte para todos nós entender o que a revista está tentando fazer, que é finalmente se aproximar mais das pessoas comuns, que compram a revista e consomem os produtos dos anunciantes, mas que não são “A-lists”, andam descabeladas pela casa tentando manter seus filhos pequenos vivos, postam fotos no Instagram com o corpo que tem, estão mais do que nunca buscando formas de se amar e se aceitar e que podem sonhar alto.

É verdade que a arrogância e um certo distanciamento das normas sociais, como se essas não caíssem sobre os domínios da Vogue, sempre deixou o ar da moda com menos oxigênio. Não sei se é licença poética ou apenas gênero, mas é como se a audácia da moda permitisse certas coisas que o mundo normal não aceita. Em uma entrevista com a Christiane Amanpour, Chief International Anchor for CNN, Anna Wintour fala sobre quando e como passou a se posicionar politicamente. Por anos a media e os jornalistas deveriam ser imparciais para manterem sua ética intacta, claramente isso não se aplica mais a todos os campos do jornalismo.

Acredito que as forças dos blogs, pela sua independência, chacoalhou as revistas de lifestyle a tomarem alguma atitude nesse sentido. A nova geração não se contenta em ler apenas os “10 passos para acabar com a celulite”. Eu quero muito mais que isso, mas também não quero me sentir julgada por querer dicas de looks e qual a melhor base para o meu tipo de pele. Na mesma entrevista, Christiane começa perguntando a Anna Wintour sobre o “elephant in the room”, o óculos escuros preto que Anna raramente tira. Ela mostra uma foto na London Fashion Week onde Anna aparece com os mesmo óculos sentada ao lado da Queen Elizabeth II e não esconde que ficou meio chocada que nem ao lado da rainha da Inglaterra ela tirou os óculos. Eu costumo gostar de quem quebra as social norms, um pouco de rebeldia pode ser libertador.

 

by Rosa Zaborowsky

Editor & Founder of Lolla.

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