manual de como respeitas mulheres indígenas

Pequeno Manual de Como Respeitar e Reconhecer as Lutas de Mulheres Indígenas

Giullia Capaldi

Hoje, 19 de abril, é celebrado o “Dia do Índio”. Falar dessa pauta no dia de hoje é tricky por vários motivos, o que inclui lugar de fala, a palavra “índio”, colonialismo e a controvérsia do dia em si, que muitos acreditam ser uma data preconceituosa.

Para quem não sabe, a data gera muitas contradições em debates sociais, especialmente para os próprios indígenas, que acreditam que eles não merecem homenagem num dia, mas sim respeito.  O texto publicado no post do instagram da Day Molina fala exatamente sobre isso: “muitos de vocês só lembram de nossa existência no dia 19 de abril. Existimos 365 dias do ano. E o que vocês pensam não muda a realidade sobre nós”

E não muda mesmo. Mas mesmo assim, com todos os poréns, quisemos trazer essa pauta para o Lolla para começar a criar uma awareness na nossa comunidade sobre a questão dos povos indígenas e da herança do colonialismo que não só marcou a nossa história de forma profunda, mas reflete na nossa maneira de pensar, sem nem a gente perceber,  até o dias de hoje.

Esperamos que gostem e que tal chamar o dia de hoje de “Dia da Resistência Indígena”? 

 

Não use os Termos “Índio” e “Tribo”

Já faz um tempo que as palavras “índio” e “tribo” vêm sendo questionadas pela população indígena como pejorativas. As razões são inúmeras e super relevantes. O termo “índio” generaliza e categoriza povos que são multi étnicos e multi linguísticos, reduzindo, de certa forma, a diversidade dessas etnias brasileiras. E isso contribui para apagar a história e a relevância de cada etnia e reforçar o lugar folclórico em que colocamos os povos originários. Não é nada legal.

Em declaração ao portal “Alma Preta”, a ativista Valquíria Kyalonã do povo Xukuru (PE) diz: “O uso recorrente do termo ‘índio’ representa um processo de não reconhecimento dos povos que existiam antes mesmo do que chamamos de ‘Brasil’.

Já tribo é um termo pejorativo, pois sua definição no dicionário é “sociedade humana rudimentarmente organizada”, também criando uma ideia no imaginário coletivo e fazendo alusão à algo primitivo.

Então quais termos devo começar a usar? Se não puder especificar a etnia, o termo “indígena” ou “povos indígenas” é mais apropriado e significa “natural do lugar que se habita”. E tribo pode ser substituído pela palavra “comunidade”.

 

“Fantasia de índio”, Apropriação Cultural e Hipersexualização da Mulher: Qual é o problema?

Você provavelmente já presenciou alguma discussão sobre se é certo ou não usar fantasia “de índio” no carnaval. 

Recentemente eu estava lendo um artigo da Katarina Moraes para o UOL, e me deparei com uma citação impactante de um integrante da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), em que ele diz: Cada povo tem sua especificidade, forma de praticar a cultura e os costumes. Quando a sociedade nos homenageia se fantasiando, por exemplo, é como se todos colocássemos a mão na boca e fizéssemos barulho, e não fazemos isso. Ou nos trata como se fossemos o indígena romantizado, do tempo do descobrimento, ou o amazônico“. 

Ou seja, compreender as vivências dos povos indígenas vai muito além de usar fantasias no carnaval ou de enfeitar crianças nesse dia do ano. Eu mesma, quando criança, inúmeras vezes sai da escola “fantasiada de índio”. E até hoje vejo crianças nas portas dos colégios com cocar de papel, o que reforça esse estigma. 

Mas, parando para pensar, vejo hoje o quanto não é nada legal nos apropriarmos de uma cultura com um tom de “homenagem”, uma vez que essa cultura certamente traz consigo todo um contexto histórico e social, repleto de significados, lutas e sofrimentos… A sociedade simplesmente se “veste” de algo que não lhe pertence e isso soa bem estranho. 

Além disso, um ponto muito importante é a estereotipação que a “fantasia de índio” propaga, criando uma imagem de uma pessoa que não sabe falar português, que anda com poucas roupas e que vive do passado, desconsiderando todas as mais de 300 etnias existentes no Brasil. 

Falando em estereotipação… As fantasias geram uma hiperssexualização de corpos de mulheres indígenas, as quais já sofrem com todo o histórico de exclusão política, social e econômica, além do contexto de dominação colonial. Isso reforça a ideia de que os corpos de mulheres indígenas servem para a exploração.

Essa relação parece too much ? Mas você sabia que os números de violência contra meninas e mulheres indígenas são alarmantes, e que essas mulheres estão sujeitas à todo tipo de violência – precariedade no atendimento de saúde, a exploração sexual em si, o feminicídio e por ai vai..  

Se quiser saber um pouco mais sobre o tema, separei esse artigo sobre a visibilidade indígena: 3 razões para parar de usar “fantasia de índio” 

Mulheres indígenas e Luta por Terras: o que você deve saber

O fato é: enquanto mulheres brancas lutam por direitos como garantir mais espaço no mercado de trabalho e melhores condições de trabalho, as mulheres indígenas estão lutando pela demarcação de terras e para defender seus territórios. Ou seja, estão lutando por sobrevivência.

Isso não quer dizer que a gente deva parar de lutar por nossos direitos como mulheres brancas etc, mas reconhecer a existência de outras lutas e narrativas é importante. Precisamos falar e nos informar mais.

Em entrevista para o jornal Brasil de Fato, Raquel Kuebo – filha de mãe descendente dos Tukanos e Kubeos – fala sobre a relação das mulheres indígenas com a terra: “Nós vemos as mulheres como começo de tudo, não dá para vir ao mundo se não for através do ventre de uma mulher. Essa relação com a terra está diretamente relacionada. As nossas veias do corpo podem ser comparadas, na natureza, com as raízes, que é onde as árvores se firmam. Se observarmos cada parte do nosso corpo tem algo semelhante com a natureza. Esse jeito de se envolver com a natureza, que o Krenak fala, é muito mais do que uma relação de objetos. Ao lidar com um animal não estamos lidando com um objeto, ao lidar com outra pessoa não estamos lidando com um objeto, estamos lidando com coisas sagradas”.

No episódio “Povos Indígenas: de onde viemos, para onde vamos”, do podcast Mamilos, a Sônia Guajajara, uma indígena influente nas redes sociais também comenta sobre essa questão de terras, que vai muito além da posse e propriedade. Recomendo! 

Feminismo Indígena existe?

O movimento de mulheres indígenas começou a ser organizado no Brasil na década de 70 e 80 e naquela época eram mulheres ganhando voz dentro do movimento indígena e levantando questões relacionadas à gênero. Hoje o movimento é bem mais organizado e traz pautas envolvendo não só a questão da situação da mulher dentro e fora da sua comunidade, mas também vemos mulheres assumindo a posição de liderança dentro do próprio movimento em si. É o exemplo da Célia Xakriabá, educadora e ativista da etnia xakriabá (MG), que participou da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Indígenas no ano passado para dar visibilidade às suas causas, o que inclui a violência de gênero contra mulheres indígenas. Em entrevista para a Marie Claire, Célia explica sua motivação:Somos mulheres coloridas. Somos um arco íris de cores. Lutamos e dizemos não a violência para manter nossos valores. (…) Nós mulheres indígenas, lutamos pela demarcação das terras do nosso povo, contra marco temporal contra mineração Garimpo somos mulheres territórios Terra história.”

Laís dos Santos, da etnia Maxakali fala sobre o tema em um daqueles artigos bem legais de ler publicado no Portal Geledés sobre seis mulheres que dizem pelo o que lutam.:Eu não me identifico como feminista indígena. O movimento é de luta das mulheres indígenas. O feminismo não contempla as nossas pautas, dificilmente somos colocadas em debate. Acho que teria que ocorrer uma descolonização e ressignificação do feminismo muito grande para atrair os olhos em larga escala para nós. A nossa principal pauta é a demarcação de terras. Não só das mulheres indígenas, mas do movimento indígena. Se não temos nosso território, não temos nada”.

Por uma outra perspectiva, mais relacionada aos interiores das comunidades indígenas, a representante das mulheres de Pankararu, Bárbara de Oliveira, diz ser feminista: “Hoje, sei que a mulher feminista é aquela que se empodera, que não tem medo de ir em busca de seus objetivos. O homem não tem direito sobre as mulheres. Aqui na minha aldeia, muitas mulheres ainda são submissas aos homens, têm medo de se expressar e de lutar por seus direitos. Ainda está sendo muito difícil mostrar para elas que feminismo é lutar por direitos iguais aos do homem e que os dois devem estar sempre caminhando juntos, que nenhum é melhor que o outro. Hoje, eu me sinto uma mulher feminista, porque eu luto pelos meus direitos.

Percebem como a questão é complexa? E porque tão pouco se fala sobre a causa indígena nos movimentos feministas. Será que essas mulheres estão ou se sentem representadas e reconhecidas? Se é um movimento feito por mulheres e para mulheres, ele deve pensar e abordar todas. Sem seletividade. 

Para se aprofundar: “Dizer que nós mulheres indígenas não enfrentamos violência de gênero é mentira

 

Contas que representam Indígenas para seguir no Instagram 

Para finalizar, separei aqui páginas para se informar sobre a causa indígena nas redes sociais.

Editors Note: este artigo não tem como propósito abordar de forma extensa e exaustiva todas as questões, lutas e perspectivas envolvendo os povos indígenas. É uma abertura para discussão de alguns temas selecionados por nossas editoras. 

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