Pensamentos sobre Parasita e a Vida Real

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A arte imita a vida.  A arte também nos faz questioná-la, transformá-la.  Este é o intuito da arte ou pelo menos, deveria ser.  Ontem assisti a apenas parte da cerimônia de premiação do Oscar, pois o sono bateu e acabei me rendendo ao conforto da minha cama.  Mas hoje não resisti e assisti aos discursos dos principais ganhadores pelo YouTube. Acho fascinante observar as palavras que cada um escolhe para tecer aqueles breves minutos ou segundos em que todos os holofotes do planeta estão voltados para si.  Utilizar um tempo precioso para passar uma mensagem de impacto para o mundo? Usá-lo para agradecer aos que ajudaram a chegar àquele momento? Alguns conseguem fazer tudo ao mesmo tempo, com muita autenticidade e ainda uma dose de graça e humor. Tudo o que fazemos e ecoamos gera impacto, sejamos famosos ou não!  E não somente a escolha das palavras, mas de cada pequena atitude. Amei saber, por exemplo, que Jane Fonda repetiu o vestido usado em uma premiação em 2014. Em uma festa tão ladeada de ostentação e glamour em torno de joias e figurinos, esta decisão (que na minha opinião deveria ser bem mais comum entre os ditos “influenciadores”) talvez tenha um impacto maior do que um discurso bem articulado sobre sustentabilidade.

Vejo pelas notícias que o grande ganhador da noite do Oscar foi o filme “Parasita”, um thriller irônico e caricatural que tem como pano de fundo a desigualdade social.  Melhor roteiro original, melhor diretor, melhor filme e melhor filme estrangeiro!  Um filme realmente surpreendente, e talvez o mais extraordinário do filme seja justamente o fato dele nos surpreender tanto.  Nós, que vivemos em um país e em um mundo com tamanha disparidade social e econômica e protagonizamos (conscientemente ou não) tantas histórias com este mesmo leitmotiv, saímos do cinema absolutamente chocados, estupefatos.

A premiação rolou madrugada adentro, assim como a forte chuva em São Paulo (que continua a cair torrencialmente enquanto escrevo este texto) e acordei com a triste notícia do alagamento e da destruição de vários locais da cidade. Não foi preciso muito para a cena da enchente de “Parasita” me vir a cabeça.  São cenas de despedaçar o coração: o apartamento no porão que já era apertado e mal cheiroso é encontrado pela família totalmente submerso nas águas depois da chuva. Os bens materiais, que já eram escassos, agora simplesmente inexistem. Infelizmente as cenas do filme mega premiado serão as cenas da vida real de muitos no dia de hoje no estado de São Paulo.   Muitos foram dormir aplaudindo o diretor Bong Joon-ho por ter criado um roteiro tão original, mas continuarão optando por ignorar (por ingenuidade ou por autoproteção) o perrengue que pessoas tão incrivelmente próximas e ao mesmo tempo tão incrivelmente distantes tiveram que passar nesta manhã cinza e tristonha.

Quero que a arte continue a me entreter e a me emocionar, mas espero que ela consiga fazer um pouco mais do que isso.  Que ela também me torne uma pessoa mais sensível, me transforme e, principalmente, me faça agir. A arte não existe para render prêmios, notícias e conversas inteligentes – ela precisa nos abrir para outras realidades e destruir nossas hipocrisias e nossas insensibilidades grotescas de cada dia.

Várias pessoas e empresas estão se mobilizando para ajudar quem perdeu tudo nas enchentes em São Paulo. Veja alguns pontos de coleta no stories do Flo Atelier Botânico.

P.S. 7 Lovely Moments from the Oscars and 7 Lovely Moments of the Golden Globes.

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by Shelly Bronstein

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