EDITORIAL — Georges Antoni - Pensamentos Sobre: O que Queremos ao Postar Nossos Filhos na Internet?

No mês das crianças não temos como escapar da reflexão sobre o auto cuidado e exposição nas redes sociais. E quando falamos em exposição dos nosso filhos, a questão é polêmica e gera muitos opiniões contrárias. No texto abaixo, a Gabi Schwarz traz uma reflexão provocativa tentando entender o porquê postamos nossos filhos nas redes sociais. Difícil desassociar a vaidade de cada post que eu faço dos meus filhos. Qual será o preço disso no futuro? A se pensar…

Pensamentos Sobre: O que Queremos ao Postar Nossos Filhos na Internet?

Por Gabi Schwarz

Precisamos conversar sobre posts em que utilizamos a imagem dos nossos filhos. Muitas vezes, na onda do momento, nos deparamos com algo que enche nossos corações de orgulho e resolvemos usar uma foto de nossos filhos para postar na rede social. Será que existem consequências a isso? Isso pode fazer mal para os nossos filhos menores? Quais são os problemas que podem estar vinculados a uma postagem em excesso de nossos filhos?

Falta de Privacidade?

Primeiramente, acho que precisamos refletir sobre a exposição por si só. Será que estamos divulgando algo que deveria ser do reduto do intimo, do sagrado familiar? Penso que ao escancarar TUDO, até mesmo a primeira cagada no pinico, deixamos de ter um espaço de segurança, conforto, e respeito máximo que atingimos apenas com aqueles que escolhemos dividir da nossa intimidade. Tenho medo, que colocamos uma pressão enorme em nossos filhos de serem “image proof” até na intimidade do lar, e isso, de forma simbólica, demonstra a eles que aquele lugar que deveria ser de segurança máxima para ser quem quer ser, pode não existir.

Tem uma outra questão muito séria também sobre privacidade. Instagram e outras mídias sociais ficam mudando sua segurança o tempo inteiro. A imagem que postamos esta lá, para milhares de pessoas verem. Não temos mais controle da onde essa imagem vai chegar.

Acredito que como mãe, precisamos proteger nossos filhos e prepará-los para o mundo. Criar um local íntimo para que eles possam se explorar e descobrir sua independência e personalidade é fundamental. Antes de postar, acredito que nós precisamos nos perguntar: estamos respeitando a privacidade dos nossos filhos e do nosso lar? Quanto vale o espaço de liberdade onde podemos gritar, dançar pelada, chorar, rir, ser louca, ser sana, apenas SER, sem o olhar do mundo lá de fora?

Posto, Logo eu Amo

Quando me dou conta do amor que sinto, quero postar. Na minha opinião, esse comportamento diz muito sobre o lugar da mídia social em nossas vidas em termos de auto-afirmação e identidade digital, o que também gera muita confusão entre vida real x vida digital.

De uma forma inconsciente acredito que exista uma lógica: se eu deixo de  postar meus filhos no instagram, isso significa que eu não os amo o suficiente? Eu preciso demonstrar ao mundo meu amor para torná-lo verdadeiro ou existe alguma forma de julgamento subjetivo ao não tornar o amor público?

Seu Filho te Representa?

Essa é uma questão bem tricky. Será que se eu postar muito sobre meu filho, na MINHA conta, então de alguma forma, eu acredito que o filho é uma extensão da minha identidade?  Será que postamos nossos filhos querendo falar algo de nós mesmas? E a independência que os filhos precisam ter para se descobrirem por si? Mesmo não querendo, projetamos coisas em nossos filhos e acredito fortemente que a mídia social atrapalha esse processo de individualização.

Vou dar um exemplo do que eu quero dizer. Recentemente vi um post de uma mãe que colocou uma foto da sua filha – de aproximadamente uns 6 anos – fazendo a unha, deitada no sofá, com ipad na mão, e colocou na legenda “madame”. Vou extrapolar um pouco para gerar uma reflexão. Será que essa menina agora sente a necessidade de fazer “madamices” para ganhar atenção e afeto da mãe – mesmo que de forma inconsciente?

Madames, inteligentes, lindos, ou bagunceiros… Como que isso se resolve na cabeça das crianças que de repente “tachados de categorias” por todas pessoas que lhe conhecem? Será que essa criança muda o seu comportamento para representar uma imagem que conforta a mãe e, portanto, publicável? Como fugir disso?

Numa criança que esta em pleno desenvolvimento psico-social, penso que precisamos nos fazer sempre a pergunta: estamos dando liberdade e respeito o suficiente para essas crianças experimentarem e criarem suas próprias identidades?

Outro ponto de atenção é a “adultização” e até a hipersexualização de crianças nas redes sociais. O termo adultização já é algo muito discutido por psicólogas como nocivo pedagogicamente. Não sei bem o porquê, mas sinto que a mídia social estimula essas fotos que adultificam e hipersexualizam crianças. Vocês têm essa impressão também?

Fantasy Land da Maternidade

Uma imagem fala mais que mil palavras, não é esse o ditado? Outro ponto que gostaria de trazer para reflexão é a questão da romantização da maternidade no instagram.

Postamos bebes no colo enquanto dançamos com ele na praia, neném fazendo barulhinhos gostosos… Será que postamos para nos convencer que tudo é 100% maravilhoso? Que somos 100% controladas, amáveis e belas?

Quem é mãe sabe que a maternidade não é só cor-de-rosa. Tem hora que seu filho não dorme, e a vontade de fugir é real. Isso é normal. Isso é ser mãe. E está tudo bem! Mas é claro que ninguém vai colocar foto fugindo do filho e do marido, descabelada na mídia social rs.

Exercemos nossa paciência infinita, nosso auto controle, buscamos nos melhorar para criar seres humanos para uma vida de independência. Deixamos de fazer nossos primeiros impulsos, nos sacrificamos, para garantir o que podemos dar de melhor para a criança. Isso é sempre legal e gostoso? Não! O amor vem cheio de nuanças e por isso que é o amor. E por mais que seja meio óbvio que a vida não é um filme de Hollywood e que postamos no Instagram apenas um pequeno fragmento da nossa vida, será que todo mundo que consome conteúdo em redes sociais consegue fazer essa separação?

O post da mãe perfeita, linda, símbolo da feminilidade, calma e romântica, quais padrões será que estamos repetindo, de forma inconsciente, como um reflexo de uma sociedade que nos criou para sermos mulheres e mães perfeitas? Será que existe uma necessidade inconsciente de postar para provar para sociedade que estão fazendo suas funções “direitinho”? E até que ponto isso não gera algum tipo de sentimento de comparação e competição para com as outras mães, de forma inconsciente? Enfim, são muitas reflexões e com certeza é um assunto que dá muita pauta! 

 

Os desafios de criar uma criança na era digital são muitos, precisamos estar atentos e nos questionar o tempo todo, especialmente a nos perguntar, se nós, como pais, estamos permitindo que nossos filhos vivam a infância de forma plena. E vocês, o que pensam sobre o assunto?

 

 

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