Meus Pensamentos Sobre o Fim do Man Repeller

E sobre onde eu quero chegar com o lolla

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Channeling my arm party

Acordei com minha amiga Cami Gusmão me mandando uma mensagem: “Você viu?”. Antes de abrir já imaginava que seria alguma noticia midiática do nosso universo de pautas favoritas: mulheres que nos inspiraram e influenciam nossa carreira, consumo, curiosidade e comportamento. A pauta de hoje foi “Leandra Medine shuts down Repeller, the old Man Repeller”.  O Man Repeller é/foi um dos maiores blogs de lifestyle do mundo, playground performático da Leandra, a founder, que construiu esse media outlet se divertindo, aparentemente. Ele foi construído para celebrar o que era awkward, estranho ao ponto de repelir os homens, por isso Man Repeller. Puro entretenimento, que de uma forma leve e divertida, deixou por muito tempo a moda menos superficial e mais sobre comportamento e inspiração do que sobre consumo.

Os textos do site pareciam ser escritos sem pausa, eles tinham uma escrita veloz que me deixava ansiosa pelo post twist e onde aquela construção de ideias iria chegar. Um lugar colorido e curioso, the epitome of cool. Talvez esse tenha sido esse o problema, as meninas se projetavam de uma maneira tão forçadamente cool, que em alguns momentos você sentia notas de Regina George (de Mean Girls). Todo mundo aqui sabe que as mean girls sempre se dão mal.

Quando o Black Lives Matter pegou força no começo da pandemia, o blog recebeu algumas criticas de pessoas que já tinham passado pelo time e de algumas leitoras. A Leandra respondeu com esse texto, vulnerável e um com um tom um pouco assustado, e sofreu um backlash maior ainda. Um comentário que eu li ficou na minha cabeça por dias, algo como “para o Man Repeller se tornar inclusivo a Leandra teria que nascer de novo. Pura ilusão achar que um blog onde a founder mostra videos cozinhando com uma jaqueta Chanel achar que vai mudar”. Olhando isoladamente para essa ideia, me fez pensar: Seria isso a inversão das mudanças de classe? Por anos durante a formação das sociedades, a sua classe social era fixa, praticamente impossível nascer pobre e morrer diferente de pobre, não tinha espaço para crescer profissionalmente ou socialmente, porque quem era privilegiado não tinha o menor interesse em mudar esse cenário.

A conscientização global de que com o privilégio nasce uma enorme responsabilidade é muito recente, e ainda muito escassa. É possível de fato ter empatia o suficiente para agir de uma forma inclusiva na sociedade sem nunca ter saído da própria bolha? De dentro da minha bolha, que é hiper privilegiada diante de toda a desigualdade desumana do Brasil, acho que não é simples. Como pensar no próximo sem nunca ter habitado o lugar do próximo? Yom Kippur é o mais próximo que já passei de vivenciar superficialmente um problema que boa parte da humanidade enfrenta todos os dias, a fome. Assim que eu como, esqueço de tudo e só volto a pensar nisso um ano depois e tenho ainda o privilegio de escolher se vou fazer jejum ou não, este ano não fiz.mPor outro lado, o problema no video da Leandra cozinhando era a jaqueta da Chanel? Para mim isso é pura inspiração.

Eu tive certeza que queria trabalhar com conteúdo quando li um perfil na Vogue UK de uma mulher morava em Londres em uma casa linda, cheia de vida, lovely and elegant, uma das fotos mostrava as pulseiras que usava todos os dias. Ela usava umas fitas de tecido que comprou em alguma viagem e fazia de pulseira e uma pulseirinha de brilhantes junto: “ganhei essa pulseira do meu marido, eu gosto de olhar pra ela no meio das tarefas do dia, gosto quando ela brilha quando bate sol, deixa meu dia mais alegre”. Eu não lembro do nome dela e nem o que fazia, mas nunca mais esqueci da foto nem da frase. Acho que jaqueta a Chanel ou qualquer outra coisa que não deveria estar ali por qualquer protocolo, deixa tudo mais interessante, tipo ter tapete na cozinha. Para sustentar um discurso inclusivo e agir de acordo, você precisa ir bem mais a fundo, para ultrapassar as camadas da jaqueta Chanel e talvez o papel daquele blog não seja esse.

Fonte de inspiração é algo tão particular. Eu sempre me identifiquei com a Leandra, sempre me inspirei na atitude, nos looks e no decor da casa dela. Sempre achei incrível o que ela construiu, e em uma nota particular, ela foi o motivo que parei de descolorir os pelos do braço. Sempre ficava apreensiva quando postava uma foto da minha #ArmParty (Leandra inventou esse nome para o mix de pulseiras) e meus pelinhos escuros ficavam em destaque. Um dia ela postou uma foto com os pelos da perna aparecendo, as harry legs da Leandra viraram notícia, e foi aí que me dei conta que ela nunca deixou de postar uma foto do seu braço fininho com pelinhos teimosos e seu mix de pulseiras indulgentes. Por causa dela fiquei obcecada na Roxanne Assoulin, e entrevistei a própria Roxanne quando o lolla tinha meses de vida.

Como uma leitora do lolla (e minha prima) brilhantemente colocou sobre o fechamento do Man Repeller, “não dá pra ser vanguarda e nicho ao mesmo tempo”. Pensei muito sobre o papel do lolla com tudo que aconteceu, e como o tamanho do seu negócio impacta a vida das outras pessoas de uma forma descontrolada se você cresce demais. Me forçou a pensar mais sobre onde eu quero chegar com o lolla e a comunidade incrível de mulheres que formamos aqui.

End of an era. Thanks for all. 

Rosa Zaborowsky

by Rosa Zaborowsky

Editor & Founder of Lolla.

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