O Que Sua Máscara Diz Sobre Você?

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Eu e minha máscara Liberty wannabe

– Per favore, la mascherina? Pergunto eu já na 10ª farmácia que passei em frente com uma careta que denuncia minha falsa esperança. “Eu tenho, mas não as máscaras N.95 que protegem do virus de verdade”, foi a frase mais cheia de esperanças que escutei durante a nossa ultima viagem, para a Itália no auge do coronavirus. Comprei 4, duas pra mim e duas para o meu marido, planejando usar no avião de volta pra casa. Era fevereiro na Itália, quando o Coronavirus chegou no Ocidente. Vi poucas pessoas nas ruas de máscara, e os poucos que usavam tinham traços orientais, a sensação que dava era que eles sabiam de algo que eu não sabia.

Eu vim quase o vôo inteiro de máscara enquanto meu marido ria da minha até então, crise de hipocondria, descrente da seriedade do problema, como 99% dos brasileiros. Foram duas semanas de uma vida já estranha até o começo do lockdown em São Paulo. Eu me lembro da sensação que tive na boca do estômago quando o prefeito da cidade anunciou que as escolas seriam fechadas, foi um misto de raiva, irritação, desespero, angustia e culpa por sentir tudo isso por teria que ficar com meus filhos o dia inteiro a partir daquele momento. Foram algumas semanas de ajustes, mas com relação as aulas online posso dizer que cheguei em um plateau. Meus filhos desenvolveram autonomia para se virarem sozinhos 90% do tempo durante as aulas. É a mesma autonomia que joga a favor deles, quando acham que podem decidir que não querem fazer a aula da Miss Gabi e eu acabo descobrindo isso quando a aula já acabou.

Mas até chegar nesse ponto, lá se foram meses incorporando as máscaras no nosso look du jour. Confessei para algumas amigas o meu relapso com as minhas máscaras, que alívio saber que não sou a única a jogar a máscara na bolsa ao sair do elevador, só para colocar de novo ao chegar na farmácia e jogar de volta na bolsa quando saio da farmácia. Não sejam como eu.

Mas acho que esse meu relapso mostra como sou da espécia humana não neorótica, protejo mais os outros com a máscara do que a mim. Ainda fico com vergonha da minha conduta quando lembro do sistema de máscaras que vi no stories, consistia em um board na porta de casa com identificações, ganchos e etc. E sinto também um certo desconforto em fotos de elevador de pessoas sem máscaras. Não sei se estão tentando provar um ponto ou se realmente esqueceram da máscara e não pensam nisso o tempo todo.

Máscaras viraram statment, o acessório que define a máxima “tudo é política”. No Brasil do Bolsonaro e na América do Trump, sua escolha de usar ou não a máscara diz o muito sobre você. Quando vi a primeira marca brasileira fazendo e vendendo máscaras estampadas, mandei uma DM para a tal marca perguntando o valor, no mesmo dia uma amiga mandou um post dessa marca em um grupo criticando a atitude da marca, “querem faturar em cima de um ítem de necessidade básica e urgente, absurdo”. Minha primeira atitude foi cancelar a DM que eu tinha mandado para a marca. Os dias passaram e fui percebendo que a pandemia potencializa a revolta interna de quase todo mundo. Essa minha amiga aceitou que máscaras podem ser cute. O governo deveria distribuir máscaras para todo mundo, mas moramos em um país em que mais de 50% da população não tem saneamento básico. A tal marca está vendendo o que todos nós precisamos comprar. Não consigo ver diferença nenhuma entre a escolha de uma máscara e de uma camiseta, porque eu compraria uma camiseta qualquer se posso ter a camiseta branca perfeita?

Vejo casais usando máscaras iguais e penso que isso parece mais uma relação incestuosa, sabe look mãe e filha? As máscaras bicos de pato, aquelas profissionais, me indicam que aquela pessoa está mais neurótica do que eu, mas sabiamente mais protegida. As máscaras com mensagens me dão uma certa preguiça, ainda mais àquelas que te colocam dentro de um grupo que automaticamente exclui outras pessoas.

E como escolher as minhas máscaras não seria muito diferente de escolher uma camiseta, gosto de dois tipos: as descartáveis de farmácia e as de tecido com estampas delicadas. Caminhando para 8 meses de uma pandemia, já posso dizer que tenho um estilo de máscara que eu curto. Achei uma legião de máscaras Liberty lindas no Etsy, e algumas poucas opções no Brasil, a maioria tentativas de máscaras com estampas Liberty.

Há 7 meses atrás eu nunca teria feito um texto sobre “ter achado o meu modelo de máscara ideal”. Seria insensível e fútil demais para aquele cenário apocalíptico, mas que não dava pista nenhuma de que chegaria para ficar. Naquela época eu fazia planos para dali a 3 meses. Agora faço planos para daqui a 8/9 meses. Teremos muitas dias de máscaras pela frente, no meu caso, melhor que elas sejam floridas com estampas Liberty, the originals. Fair enough.

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Rosa Zaborowsky

by Rosa Zaborowsky

Editor & Founder of Lolla.

Comentários

  1. Gostei da sua reflexão e acho que a máscara ainda vai permanecer conosco por um tempo. Eu sempre optei pelas máscaras mais básicas, feitas pela minha mãe, que começou a fazê-las para se ocupar.. ultimamente minha avó faz o mesmo, o que se tornou uma distração em tempos de isolamento. Com o tempo entendi como os modelos influenciavam pela constante atualização de moldes disponíveis, aprendi tb como um alérgico ‘sofre’ quando está com o modelo de máscara errada. sinto muito por ainda não ter uma máscara inclusiva para ir ao mercado (o funcionário que me ajuda é surdo e a máscara de tecido impede a leitura de expressões faciais)…

    • Quero saber mais sobre essa questão da mascara para quem tem alergia. Tem algumas que me deixa doidinha, espirrando, coçando o nariz, que é totalmente contraprodutivo =/

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