esther perel - amor
Instagram: @estherperelofficial
“Nenhum homem é uma ilha isolada”, já apregoava sabiamente John Donne nos idos do séc XVII, afinal somos seres sociais e sociáveis – alguns mais do que outros, é verdade. Mas nos dias de hoje, não há maior autoridade para falar sobre a forma como deixamos de ser ilhas e nos relacionamos com o outro do que a psicóloga belga Esther Perel.
Filha de sobreviventes do Holocausto, Esther Perel começou a sua prática profissional como terapeuta familiar, concentrando-se em questões de trauma e conflito cultural. Partiu daí para atuar na terapia de casais, a qual se tornou a sua especialidade. Na minha vida, ela entrou de forma completamente aleatória, como a maioria das “coisas boas” geralmente aparecem.

Encontrei a Esther Perel em uma palestra do TED Talks

Um pouco antes do começo da pandemia eu estava obcecada as palestras do TED Talks. Isso foi logo após o nascimento da minha terceira filha quando aquela vontade louca de socializar com alguém que efetivamente falasse (olha eu evitando ser uma ilha lactante!), me fizeram consumir todo tipo de TEDs possível. Assisti de tudo. Do: “The danger of a single story” da Chimamanda Ngozi Adichie ao “Do Schools Kill Creativity?” do Sir Ken Robinson (recomendo ambos fortemente). E foi numa dessas zapeadas pelo TED Talks que Perel apareceu entre as minhas sugestões. Nos primeiros cinco minutos da sua palestra entitulada “The secret to desire in a long term relationship” eu já estava completamente enlouquecida pelas suas provocações e insights. Do seus Talks, para seu livro e principalmente para seu podcast “Where should we begin?”, foi um pulo.

Por que admiro a Esther?

Me tornei fã dessa mulher de vivos olhos azuis e sotaque envolvente não só porque ela dirige uma clínica de terapia em Nova York há mais de 35 anos e atua como consultora organizacional para empresas da Fortune 500 em todo o mundo. Tampouco porque ela fala nove línguas e seus livros foram traduzidos para quase 30 idiomas. O que me encanta em Esther Perel é a sua amplitude de visão com olhar individualizado para as questões das relações interpessoais. Esther é sensata, tem uma habilidade especial para desconstruir paradigmas desgastados, é culta, tem humor inteligente e sabe como ninguém contextualizar a vivência dos casais nas particularidades de suas histórias de vida. Com máximas como: “A sobrevivência da família depende da felicidade do casal”. “O divórcio acontece agora não porque somos infelizes, mas porque poderíamos ser mais felizes.” “Teremos muitos relacionamentos ao longo de nossas vidas. Alguns de nós vão tê-los com a mesma pessoa.” Ela é o tipo de oradora que te captura instantaneamente.
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Sobre amor e erotismo

No seu livro “Sexo no Cativeiro: Como manter a paixão nos relacionamentos”, Esther compartilha o que aprendeu na prática profissional sobre como manter viva a paixão sexual em relacionamentos de longo prazo. Já no começo da obra ela nos toma de assalto com perguntas que nos desconcertam: “Como é amar alguém? E o que há de diferente em desejar alguém? A intimidade sempre leva a um sexo prazeroso? Por que a chegada dos filhos destrói o erotismo? Por que o proibido é tão excitante? É possível querer o que já se tem?”. A sexualidade, segundo a autora, tem tudo a ver com superar distâncias – mas para superar distâncias, é preciso que existam distâncias (não necessariamente físicas, mas de individuação). E apesar de toda a nossa conversa sentimental de buscar uma “outra metade”, a maioria de nós não busca, de fato, “uma parte de nós mesmas”. O amor erótico — apesar de toda a sua atração pelo que reconhece e com o qual se identifica — é atraído com especial força para o desconhecido. Na verdade, é mais atraído pelo distante e perigoso do que pelo doce, pelo acessível, pelo familiar. E o que fazer, então, com o sonho de um relacionamento duradouro for life? O trunfo da autora é não apresentar soluções mágicas mas sim jogar luz, com muita maestria, sobre questões incômodas, porém fundamentais do tema, e trazer à tona o debate – o qual recomendo que seja trazido para dentro do relacionamento. Pois como afirma a própria: “Conciliar o erótico e o doméstico não é um problema que você resolva. É um paradoxo que você administra”. Conclusão: não há solução, há gerenciamento.

Where should we begin?

Uma vez que para questões tão íntimas e complexas as respostas não poderiam ser óbvias e generalistas, o Podcast “Where should we begin?” nos permite ver a aplicação das ideias da autora em casos concretos. Neste, que para mim é o maior de seus feitos, Esther nos dá acesso ao seu consultório e participamos como ouvintes de sessões de terapia onde casais dos mais variados perfis: gays, heterossexuais, transculturais, com e sem filhos – falam abertamente sobre questões da vida à dois sob o manto libertador do anonimato. Perel usa conversa, cultura, intuição e criatividade para fazer interpretações e considerações perspicazes de forma elegante e incisiva. Ouvir essas sessões é profundamente provocador porque, em certo nível, acabamos nos identificando com os dramas daqueles casais. Nenhum dos pacientes é exatamente ou nada parecido com você, nenhum dos problemas deles é exatamente ou nada parecido com o seu, mas haverá momentos de reconhecimento onde você se pegará pensando: “Será que isso não se aplica a mim também?” Sobre a experiência, Esther afirma: “O podcast cria um ambiente virtual onde você ouve profundamente os outros, mas, na verdade, você está na frente do seu próprio espelho”. Fato é que o “Where should we begin?” de alguma forma me ajudou a encontrar novas perspectivas sobre mim mesma, meu casamento e principalmente sobre as mudanças pelo qual ele viria a passar com as chegada de um terceiro filho.

Reflexão about love

A lista dos temas e questões levantadas por Esther, em toda a sua produção, é extensa e não caberia em um só texto. Além de que cada um deles é uma abertura para novos desdobramentos e discussões que por si só são interessantíssimas. (Assista a uma palestra de Esther Perel antes do seu próximo jantar com as girls e você verá o seu poder!) Portanto, além de recomendar seu livro, suas palestras e seu podcast, encerro aqui com uma última reflexão da psicóloga sobre o amor: “É um verbo. Essa é a primeira coisa. É um envolvimento ativo com todos os tipos de sentimentos – positivos, primitivos e repugnantes. Mas é um verbo muito ativo. É como a lua. Achamos que desapareceu e, de repente, aparece novamente. Não é um estado permanente de entusiasmo. Tenho trinta e cinco anos de relacionamento, e pratico. E eu tenho dois filho — e pratico. Não é apenas o amor romântico.” Let’s practice!
P.S: Esther Perel é também autora de “Casos e casos: Repensando a infidelidade” o qual ainda se encontra na minha lista de “to-read” e do podcast “How’s work?” com foco nas conversas difíceis que temos medo de ter no ambiente de trabalho.
(Photo Esther Perel)
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by Maria Claudia Cassou

Curitibana, mãe, advogada, e amante inveterada da literatura. Acredita que a vida pode ser mais rica com livros e mais bela com flores.

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