alice manifesto nao roteiro - A Vez Que Decidi Viver Minha Vida Sem Planejamento

Nada do que fiz nos últimos 20 e poucos anos foi feito sem planejamento. Uma frase um bocado difícil de despejar aqui, mas olhando para trás realmente não consigo encontrar qual foi a última vez em que realmente não me importei com o caminho ou em que deixei de apontar para um norte. Já saí da escola com planos bem definidos e sabia desde sempre para onde gostaria de ir. Mesmo quando fiquei em dúvida de que caminho seguir para chegar lá, logo uma voz familiar do GPS me guiava com seu sotaque português pelo caminho com menos pedágios ou menos obstáculos. Olhando o mapa que se apresentava lá na minha tela sabia de antemão de cada curva fechada que viria a seguir.

Quando cansava de um trabalho, logo encontrava um novo que me desafiasse a chegar lá. Quando tinha medo de sair despreparada, logo um aplicativo de previsão do tempo me avisava para levar o guarda-chuva. Quando ficava com medo das calorias da sobremesa maravilhosa, logo meu apple watch me tranquilizava pois eu já tinha caminhado mais de 10 mil passos naquele dia.

Todo verão sinto um chamado no ar quente que toca o meu rosto: ele me pede para esquecer o caminho, o planejamento, as reservas, o horário, o orçamento, os objetivos, o mapa, o pijama, o filtro solar…

É um chamado complexo para alguém que tem síndrome de Alice: sempre preocupada com o caminho mesmo quando não sabe exato onde precisa ou quer chegar. O Gato de Cheshire sorri sarcasticamente para mim enquanto eu, sentada no banco do passageiro, me sinto aliviada que tenho um gps ao invés de um mapa vintage de papel.

Em tempos digitais, monitorada pela última tecnologia, nem quando sinto fome no meio do caminho gosto de deixar um espaço ao acaso. Vou logo dando um “google”: qual o melhor restaurante no meu caminho? Então me pergunto: aonde foi parar o meu senso de aventura? Por que não provar aquele restaurante desconhecido e de nome comum? Quando será que eu esqueci a minha espontaneidade ?

Deve ter sido quando eu recebi aquela nota negativa num teste de matemática na 4a série. Quando lembro dessa primeira vez em que fiz um teste sério na vida automaticamente identifico que algo mudou em mim naquele dia: percebi que se não tivesse um mínimo de dedicação e planeamento não chegaria em lugar algum. Enfim, desde aquela prova eu nunca mais me dei a chance de sair de casa sem checar a previsão do tempo. E para garantir também desde então sempre checo se o guia de ruas de São Paulo e o talão do zona-azul estão no porta-luvas do carro, hahaha…

A verdade é que odeio a sensação de não ter feito tudo o que estava ao meu alcance para ter o melhor resultado o possível. É tudo uma questão de planejamento e controle. Sabe aquele lema: “doing the best with what we have” (“fazer o seu melhor com os recursos que tem”)? Então, eu amo esse lema tanto quanto eu odeio ele. Porque a verdade é que o que mais temos no mundo hoje é informação, e pesquisar não leva mais do que 10 segundos. A menina que procurava informações na Enciclopédia Barsa vai a loucura com tanta informação. E a mesma menina que trocou a Barsa pelo Google, trocou a Espontaneidade pela Previsibilidade.

Acabo de voltar de férias e sentada na mesa da cozinha perguntei ao meu marido: “qual foi a parte das férias que mais amou?”. Ele pensou, sorriu com um certo ar de Cheshire e logo respondeu: aquele jantar no pub que não estava no nosso roteiro. Todas as horas planejando cada passo da nossa nossa viagem, pesquisando cada cidade, cada dica, cada restaurante, cada lugar secreto nunca poderiam ter previsto tal resposta. Então fica aqui o meu manifesto pela falta de destino, pelo acaso, pelo espirito libertino do verão, pelas gotas da chuva nos cabelos escovados, pelo caminho errado, pela sobremesa fora de hora, pelo não planejado, pelo pub que não estava no roteiro. O manifesto do não-roteiro.

Tão irresistível quanto pegar carona no tema do Lolla desse mês, foi tirar do meu arquivo um dos editoriais de moda mais lindos que já vi. As fotos tiradas pela fotógrafa Annie Leibovitz para a Vogue Americana de 2003 convida os leitores da revista a rever o clássico da literatura pelos olhos fashionistas da brilhante stylist Grace Coddington. Junto com as fotos deixo então o podcast produzido pela Vogue no qual a fotógrafa, a stylist e a modelo Natalia Vodianova relembram as histórias desse photoshoot icônico.

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