MULHERES NO AFEGANISTÃO
Foto: Fatimah Hossaini

Os últimos acontecimentos no Afeganistão com a tomada de Kabul pelos Talibãs, mexeram com o mundo todo, mas principalmente com as mulheres de todos os cantos: Um sentimento de impotência, inquietação, um grito preso na garganta pronto para explodir: por elas, por todas nós.

De repente vi minhas mídias sociais serem invadidas por um aglomerado de opiniões, informações e julgamentos, que falavam de uma mulher fraca e oprimida, escondida em uma vestimenta que não nos passa a sensação de liberdade, e uma certeza: as mulheres muçulmanas precisam ser resgatadas.

Tentei pensar em cada uma das mulheres que conheci em minhas andanças, algumas viagens a trabalho, em que tive a oportunidade de visitar países oficialmente islâmicos, como Bangladesh e Paquistão mais de uma vez. Já conversei com mulheres muçulmanas incríveis, independentes e plurais: mães, dentistas, advogadas, empresárias, administradoras, feministas, mais conservadoras ou modernas! Mulheres fortes e cheias de opinião.

No livro Do Muslim Woman Need Saving?,a antropóloga Lila Abud-Lughod provoca uma discussão sobre a tendência ocidental em diminuir e vitimizar as mulheres muçulmanas, e o quanto esta narrativa é utilizada para justificar e criar razões para determinadas instituições promoverem seus direitos humanos como bem entendem. Temos visto tantas interferências estrangeiras e militares em nome do resgate das mulheres do Islã, mas será mesmo que nós é quem vamos dizer do que elas precisam?

Em sua pesquisa de mais de 30 anos em comunidades muçulmanas do mundo inteiro, ela traça um perfil complexo dessas mulheres, cujo problema de desigualdade de gênero, não deve ser atribuído apenas ao caráter religioso, mas também a condição de pobreza e autoritarismo político em que as comunidades extremistas estão inseridas. Desta forma, o nosso vocabulário padrão, da mulher ocidental sintetizado em opressão, escolha e liberdade, é muito simplista para definir estas mulheres.

Nas imagens logo após a tomada de Kabul, muitas mulheres se uniram para protestar nas ruas do Afeganistão: sim, elas tem vozes próprias, não precisam de tradução para suas lutas.

 

O que podemos realmente fazer?

 

1. Estude e leia fontes confiáveis

Procure entender o contexto hitórico do Afeganistão. Além de uma infinidade de livros, artigos e vídeos disponíveis, listo aqui alguns perfis que podem servir como guias!

Desoriente-se @des.orientese:perfil para entender um pouco mais sobre o Oriente Médio de forma fácil e didática!

E direto da Fonte, algumas mulheres jornalistas incríveis baseadas no Afeganistão:

Elise Blanchard @eliseblchrd: jornalista Francesa da Agence France Press

Lynzy Billing @lynzybilling: britânica, escreve para o Washington Post, Time, Guardian entre outros.

Kiana Hayeri  @kianahayeri: senior TED Fellow, Kiana é canadense e se intitula como Visual Storyteller, Escreve para o National Geographic, The New York Times, Harper’s Magazine, entre outras.

 

2. Amplie as Vozes das Mulheres Afegãs

Dê protagonismo e potência a essas mulheres e ao que elas tem a dizer, sigam e indiquem seus perfis nas mídias sociais. São mulheres como nós, atletas, artistas, ativistas que usam estes canais para serem ouvidas. Algumas delas:

 

Khalida Popal @khalidagirlpower

Capitã do primeiro time de futebol feminino do Afeganistão e fundadora do Girl Power Org – projeto que usa o esporte e a educação como ferramenta de inclusão social para garotas de famílias de imigrantes ou refugiadas principalmente na Europa, com diferentes origens culturais.

 

Hasiba Ebrahimi @_hasibaebrahimi

Atriz afegã de 24 anos que simboliza a nova geração da indústria cinematográfica do país.

 

Fatima Hossaini @fatimahhossaini

Fotógrafa, professora e artista visual afegã que conseguiu fugir do país dois dias após a tomada de controle dos Talibãs. Seu relato desta jornada pode ser lido neste link.

 

Roya Heydari @roya_heydari

Fotojornalista e filmaker, estudou ciência política, mas viu que a arte poderia ser ainda mais poderosa. Recentemente participou de um documentário que mostra o trabalho das ONGs pelo país, capturando imagens incríveis.

 

Pashtana Zalmai Khan Durrani @afghania_barakzai

Ativista desde criança, é defensora dos direitos das meninas afegãs à educação, líder do projeto Learn, dedicado à causa.

 

Screen Shot 2021 09 01 at 12.41.00 - MULHERES NO AFEGANISTÃO para Seguir nas Redes Sociais

Foto: Roya Heydari

3. Apoie projetos e fundos de apoio

Muitos projetos já existem há anos, e são dedicados as causas dentro do Afeganistão ou a assistência aos refugiados

 

Silaiwali @silaiwali

Projeto que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, acolhe mulheres refugiadas do Afeganistão em Nova Deli, na India – uma das principais rotas de fuga. Elas fabricam bonecas lindíssimas utilizando restos de tecido da indústria têxtil local entregam no mundo inteiro!

 

Learn @learn.afg

ONG destinada a promover e garantir o direito a educação das meninas afegãs. Após os recentes acontecimentos, segundo o site oficial, as doações estão sendo usadas para assegurar necessidades básicas de famílias locais.

 

Airbnb.org

No site do airbnb.org é possível se candidatar para abrigar refugiados ou efetuar uma doação para que mais pessoas possam receber abrigo sem custo. A plataforma anunciou que pretende acomodar 20 mil refugiados do Afeganistão.

 

E dentro dos perfis das mulheres afegãs que eu já listei, você pode encontrar um link com diversas iniciativas!

 

4. Evite narrativas simplistas e estereotipadas sobre a religião muçulmana

Em uma de minhas viagens ao Paquistão, tive uma experiência linda que me tocou profundamente durante o Ramadã – um dos rituais religiosos mais importantes do Islã – e ao final fui presenteada com um Alcorão traduzido para o Inglês. Há passagens muito sensíveis, que falam de amor e tolerância.

Para ajudar a conhecer mais sobre a religião sem mistério, recomendo 4 perfis de mulheres muçulmanas e feministas no Brasil – sim, é possível ser muçulmana AND feminista!

 

Mariam Chami @mariamchami_

Influencer, incrível e super divertida. De maneira simples e bem humorada nos deixa muito próxima de seu cotidiano contando experiências e criando memes.

 

Carima Orra @carimaorra

Educadora, empreendedora, palestrante, TEDx speaker – assistam o vídeo Além do Véu.

 

Paula Djanine  @pauladjanine

Mestre em estudos islâmicos, além de falar sobre a religião e seu dia a dia, posta fotos de seus looks que são um charme!

 

Fabiola Oliveira @fabiolaoliver

Professora e ativista, fala sobre a religião de forma didática, sem medo de tocar em assuntos polêmicos.

 

As Afegãs e muçulmanas nos ensinam a ouvir, e a não reproduzir tudo aquilo que como mulheres, não importando a cultura ou nacionalidade odiamos tanto: sermos estereotipadas, subestimadas e caladas. E olha que já passamos muito por isso, já falaram por nós, e não vale reproduzirmos dentro de nosso coletivo o que tentamos combater! Hoje são as mulheres do Afeganistão que ecoam, mas poderiam ser tantas outras, dentro das diversas minorias daqui pertinho mesmo, de onde moramos. E precisamos continuar de olhos, ouvidos e coração abertos para que possamos ampliar suas vozes  até serem vistas, ouvidas e admiradas. Por elas, por todas nós.

 

by Emi Yoneshige

Publicitária, trabalha com moda há 15 anos. Mora em Shanghai e é responsável pelo escritório da Ásia de um importante grupo de moda brasileiro.

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