women science 2 1200x1500 - Mulheres Escondidas Pela Ciência

No Dia das Mulheres fiz um post homenageando uma das mulheres que mais considero, a matemática/ programadora mais revolucionária que já existiu. Uma amiga minha deu reply e disse uma coisa que me incomodou: “Eu não sabia que o Lord Byron teve uma filha que fez muito mais coisas do que ele. Olha que loucura como a gente enxerga a história pelos olhos dos homens.“. Essa frase me colocou para pensar. Se você ouve os nomes Albert Einstein, Stephen Hawking e Alan Turing, provavelmente não te soarão estranhos e você conhecerá seus feitos. Mas você já ouviu falar sobre Ada Lovelace, Mileva Marić e Rosalind Franklin?

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Ada Lovelace

Não queria começar a descrição de uma das mulheres pelas quais tenho a maior admiração dizendo que ela é filha do Lord Byron, porém esse é um fato importante a se pontuar. Após o seu nascimento, ela foi rejeitada pelo pai por não ter nascido homem e, junto com sua mãe, foi convidada a se retirar da casa onde moravam. Lady Anne Isabella Milbanke Byron era uma mulher da ciência e sua área de estudos era a matemática. Preocupada que Ada seguisse o mesmo caminho boêmio que o pai, começou a instruí-la na sua área de conhecimento desde a primeira infância.

No campo da matemática, Ada é conhecida como a mãe da programação, pois foi a primeira matemática a criar um algoritmo processado por uma máquina, ou seja, foi a primeira programadora da história — sim ela foi a primeira pessoa a de fato programar e não apenas a primeira mulher a escrever um código. Ela também acreditava que qualquer tipo de conteúdo — músicas, textos, imagens — poderiam ser traduzidos para a forma digital e manipulados por máquinas. Seu trabalho não foi reconhecido em vida e seu reconhecimento como pioneira da computação só surgiu depois de ter sido mencionado por Alan Turing. Em 1953, mais de cem anos após sua morte, seu estudo foi republicado e suas notas foram reconhecidas como a descrição de um computador e de um software.

Esse computador que estou usando agora para escrever, o seu smartphone, talvez não existissem caso Ada não tivesse elaborado com tanto brilhantismo o primeiro algoritmo. Desde 2009, toda segunda terça-feira de outubro é comemorado o Ada Lovelace Day, com o objetivo de encorajar mulheres na Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

 

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Mileva Marić

 Talvez você nunca tenha ouvido o nome Mileva Marić ou talvez a conheça como Mileva Einstein. Mileva foi uma mulher notável, para continuar matemática e física na época onde as mulheres eram proibidas a fazer ensino superior. Foi mudando de país em país para conseguir prosseguir com seus estudos. Entrou no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, onde começou o curso junto com Albert Einstein. Como acontece com muitas mulheres, a carreira científica de Mileva parou quando ela ficou grávida de Einstein, enquanto ainda não eram casados. Com três meses de gestação, ela tentou fazer o exame para a obtenção do diploma e se formar, porém não atingiu a nota mínima e parou os estudos.

Há muitos anos, é discutido se Mileva teve participação nos feitos do ex-marido e nos trabalhos que o fizeram ganhar o prêmio Nobel, como o mais conhecido deles — a Teoria da Relatividade. No conjunto de cartas trocadas pelo casal, ambos se referiam às pesquisas como nossos trabalhos ou nossa teoria da relatividade. Como exemplo, podemos ver o trecho a seguir, retirado de uma das cartas: “How happy and proud I will be when the two of us together will have brought our work on relative motion to a victorious conclusion” (Quão feliz e orgulhoso eu ficarei quando nós dois, juntos, trouxermos nosso trabalho sobre relatividade para uma conclusão vitoriosa — tradução livre). Muitas pessoas dizem que as cartas não representam uma prova concreta. Fica o questionamento: quantos prêmios foram concedidos (927) e quantos deles a mulheres (57)?

 

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Image: The Guardian

 

Rosalind Franklin

Rosalind foi educada em uma família judaica tradicional e sempre se destacou como estudante. Seu pai era contra sua ida à universidade e mesmo assim se tornou doutora pela Universidade de Cambridge. Primeiramente ela se especializou em difração dos raios-x, e aplicou a técnica para analisar materiais carbonizados (carbono e grafite). Alguns anos depois se juntou ao King’s College Medical Research Council no laboratório de biofísica de Maurice Wilkins, onde começou a aplicar os seus estudos para determinar a estrutura da molécula do DNA, em 1952. Após um ano de cálculos e 100 horas de planejamento para execução, Franklin obteve a foto mais famosa do DNA — Photo 51. Nesse mesmo período, o biólogo americano James Watson e o físico britânico Francis Crick também estavam engajados no mesmo campo de pesquisa que Franklin e Wilkins. Sem autorização de Wilkins mostrou a Photo 51a Watson e Crick e assim eles conseguiram chegar conjuntamente à estrutura correta do DNA, ganhando um Nobel em 1962.

Rosalind morreu em 1958, sem saber que sua foto tinha sido compartilhada. O reconhecimento de sua pesquisa veio à tona apenas quando Watson revelou, em seu livro, suas contribuições e na revelação de cartas trocadas entre o trio, onde falavam que não teriam conseguido nada sem a foto.

Após abandonar a pesquisa sobre estrutura do DNA ela também trabalhou na pesquisa para obter a estrutura do vírus, porém veio a óbito. Seu colega, Aaron Klug, continuou o estudo e ganhou o Nobel em 1982. Ou seja, ela foi merecedora de dois prêmios Nobel.

Podemos continuar com uma lista infinita de mulheres escondidas pela ciência: Katherine Johnson, Dorothy Vaughan, Mary Jackson — essas ganharam um filme que vale a pena assistir caso ainda não tenha visto, chamado Estrelas além do tempo —, Kathleen Culhane Lathbury, Lise Meitner, Chien-Shiung Wu, Jocelyn Bell Burnell, Vera Rubin e Esther Lederberg. Recomendo fortemente a leitura do livro Women in Science: 50 Fearless Pioneers Who Changed the World e que a gente comece a dar nomes para as grandes mulheres que batalharam tanto antes da gente e por todas que continuam lutando.

 

TEXTO: ANA PAULA TERADA 

  1. Mulheres brilhantes! Amei o texto, Ana. É de se questionar mesmo como sabemos tão pouco sobre mulheres tão inteligentes e revolucionárias no que fizeram. Tem muito caminho pela frente, mas já é um começo.

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