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TURNING POINT + CAREER AFFAIRS 

 

Por Marianna Bazzon 

Cheguei na década dos 30 e já faz algum tempo que tenho notado que os temas das conversas nos meus grupos de amigas têm mudado. Às vezes até dou risada sozinha quando lembro da minha versão mais nova achando essas conversas boring, quando via a minha tia e suas amigas falando e falando, entre vinhos e petiscos, naquela sala ainda estilo anos 60 na casa da minha avó.

Entre os temas mais recorrentes, sem dúvida a Fertilidade tem ganhado um destaque especial na minha roda de amigas. Talvez seja aquele “reloginho” que tanto nos falaram sobre, ou talvez seja o covid nos impedindo de sair para conhecer gente, não sei…Só sei que no auge de nossos trinta e poucos anos, esse tema passou a ser pauta das conversas, especialmente entre as solteiras. Entre consultas e exames, cada uma das minhas amigas aparece a cada dia para contar suas experiências, sempre repletas de dúvidas e angústias…

Pessoalmente, eu tive que lidar com esse tema da fertilidade quando era bastante jovem, nos meus recém completados 18 anos – o que é bastante incomum (ou pelo menos era na minha época rs). Ao entrar na faculdade, descobri que estava com uma doença grave, Linfoma de Hodgkin, estágio 4. Eu sei, parece muito assustador e de fato é, mas enquanto estava na consulta médica, não foi esse o diagnóstico que mais mexeu comigo. Acredite, eu só comecei a chorar quando o médico me falou que o tratamento para o linfoma poderia me tornar infértil. O meu mundo caiu: eu nem sabia que tinha essa vontade de ser mãe, mas a mera possibilidade de não poder ser, me abalou demais. Aliás, ouso dizer que o processo para congelamento dos meus óvulos me afetou mais, psicologicamente, do que as sessões de quimioterapia (processo esse, também, extremamente complicado, repleto de emoções e aprendizados).

Hoje, estou curada e meus filhotes (aka. óvulos) estão lá bonitinhos e congelados! Estou contando tudo isso porque percebo que a maioria das mulheres (e homens) não teve essa “oportunidade” de falar sobre a fertilidade tão cedo quanto eu tive. Se a situação não tivesse me “obrigado” a lidar com esse assunto, talvez eu estivesse nesse mesmo lugar de dúvidas, incertezas e frustrações que várias amigas estão hoje. Então fico me perguntando, por que Fertilidade é um tabu? Por que esse assunto só começa a ser falado em um contexto de “desespero” ou “ansiedade”?

Recentemente, descobri a Oya Care – uma clínica digital feminina que ajuda mulheres a descobrir sobre sua fertilidade, com a ajuda de médicos especialistas, sem sair de casa. Achei incrível a proposta e, junto com o time do Lolla, conversei com a Stephanie Von Staa Toledo, criadora/fundadora da Oya Care, para entender um pouco mais sobre o assunto

 

LEIA A ENTREVISTA COM STEPHANIE, DA OYA CARE 

Stephanie tem 32 anos, nasceu em São Paulo, cresceu entre Miami e uma fazenda no interior do Paraná. Cursou administração de empresas na EAESP-FGV, e tem um MBA e Master em relações internacionais na Universidade da Pensilvânia. Antes de fundar a Oya Care, Stephanie trabalhou em banco de investimentos, consultoria estratégica e startup de ecommerce. Hoje mora em São Paulo com o Tobias (diz ela que é o cachorrinho mais legal do mundo!)

 

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Photo: Nathalie Artaxo

So tell us, o que exatamente você faz?

Sou fundadora e CEO da Oya Care, uma femtech dando os seus primeiros passos. A missão da Oya é promover a autonomia feminina, começando pela saúde. Vamos ser a primeira clínica digital de saúde feminina do Brasil. O nosso primeiro produto é a ‘Descoberta da Fertilidade’ que trata de um tema muito delicado, que é entender a jornada de fertilidade da mulher.

Na Oya, eu faço de tudo! De relações com investidores, finanças estratégicas, relações com médicos e clínicas, desenvolvimento do site, até criação de conteúdo e atendimento. Aos poucos, pessoas mais especializadas em cada uma dessas áreas estão assumindo algumas dessas frentes. Em todas as atividades, o meu principal objetivo é garantir que as nossas ‘oyanas’ (como chamamos carinhosamente as nossas clientes) se sintam acolhidas quando em contato com a empresa.

Eu também me preocupo com o bem-estar do time e com o meu também. Estou sempre atenta aos horários de trabalho, buscando entender como cada um está conseguindo aproveitar o tempo fora do trabalho. Somos um time pequeno ainda e isso facilita bastante esse acompanhamento de perto.  Como alguém que já teve diagnóstico de síndrome de burnout duas vezes, eu entendo como é relativamente fácil e perigoso não prestar atenção no bem-estar próprio e das pessoas ao seu redor.

De onde surgiu a ideia de criar a Oya Care? E como você enxerga o propósito da startup

Aprendi desde cedo que manter corpo e mente saudáveis é o primeiro passo para ter força, leveza, prazer e independência na vida. Mas não é fácil. Fui percebendo que as respostas e soluções convencionais na verdade não foram feitas, pensadas ou atualizadas para atender corpos femininos. 

Comecei a pesquisar e aprendi que, até 2015, não era obrigatório envolver homens e mulheres na mesma proporção em pesquisas e ensaios clínicos — aliás, muitos nem contavam com participantes do sexo feminino. E mais: foi só a partir dos anos 90 que o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) começou a estudar a saúde da mulher como uma linha específica. O olhar da medicina para as mulheres é recente demais e isso tem grandes impactos na vida e na saúde feminina. O homem já pisou na Lua, mas ainda não conhece o corpo feminino. 

Como mulher, me encontrei com infinitas dúvidas, questões, emoções que não entendo 100% e recomendações com as quais não me identifico. E a verdade é que não sou a única. Com essa motivação, fundei a Oya Care.

A proposta é tratar sobre assuntos importantes para a vida feminina em um ambiente aberto, direto, sem tabus e com uma linguagem simples. O objetivo é sempre descomplicar o cuidado com a saúde da mulher. A ciência e o acolhimento são os nossos principais pilares. Procuramos fugir dos tradicionais estereótipos cor-de-rosa de serviços relacionados à mulher no Brasil.

Por que você decidiu começar pelo tema fertilidade da mulher?

Porque eu acredito que esse é um tema sobre o qual as mulheres ainda sabem muito pouco. As mulheres fazem acompanhamento com ginecologista, realizam exames de rotina que olham para uma série de fatores, mas a fertilidade não está inclusa nessa lista. A fertilidade impacta muito no nosso autoconhecimento como mulher, mas a maioria das mulheres só olha para ela quando quer engravidar.

Muitas mulheres pensam em ser mães um dia. Com a vida profissional mais ativa, maior independência e expectativa de vida cada vez mais alta, as mulheres estão adiando a maternidade. O detalhe é que a fertilidade da mulher não é vitalícia — o corpo dela já nasce com todos os óvulos que serão liberados durante sua vida fértil. Ou seja, eles acabam.

O resultado é que muitas mulheres enfrentam dificuldades quando finalmente escolhem o “momento certo” para engravidar. Não apenas pelo desencontro com o momento ideal para seu relógio biológico, mas principalmente porque a fertilidade não foi uma questão abordada antes. São muitas expectativas, frustrações e dificuldades que poderiam ser evitadas ou superadas com o autoconhecimento desde cedo, que um acompanhamento por exames como o que a Oya Care oferece seria capaz de proporcionar.

Quando olhamos para as soluções de saúde voltadas para esse tema, elas estão muito pautadas na ‘infertilidade’. É como se não existisse o tema ‘fertilidade’. Tipicamente, você vai todo ano ao seu ginecologista e em algum momento da vida vai parar no médico da ‘infertilidade’.  E esses tratamentos são extremamente caros, intensos e, inevitavelmente, desgastantes. Por que precisa ser assim? Por que não olhar para este aspecto antes desse momento complicado e caro chegar?

Além disso, tratamentos para infertilidade são extremamente caros, intensos e, inevitavelmente, desgastantes.

A fertilidade é o primeiro tema abordado pela Oya Care, para levar autoconhecimento sobre o tema para mulheres de todas as idades.

Como é feita a investigação de fertilidade na Oya Care?

Ainda não existe o ‘raio-x da fertilidade feminina’. Ao investigar a fertilidade, os especialistas olham para indicadores quantitativos e qualitativos. O indicador quantitativo mais indicado é o índice de hormônio antimülleriano, conhecido como ‘exame HAM’. Os indicadores qualitativos são histórico médico, idade e estilo de vida.

Como queremos descomplicar o cuidado com a saúde da mulher, todas as etapas da ‘Descoberta da Fertilidade’ acontecem em casa ou pela internet. Primeiro, uma enfermeira vai à casa da “oyana” para fazer o exame HAM. Depois, marcamos uma conversa com um especialista via videochamada (online). Durante esta conversa, a oyana tem a possibilidade de entender o resultado do exame e os seus indicadores qualitativos. É o momento para tirar todas as dúvidas e, se quiser, fazer o planejamento da vida fértil. No final da jornada, a oyana terá em mãos um relatório personalizado sobre a sua fertilidade.

No geral, o tema fertilidade vem à tona no momento em que a mulher decide engravidar. Na sua experiência, com quantos anos devemos começar a nos preocupar com isso?

Quanto antes. Fertilidade não é só sobre engravidar. Mais do que a capacidade de gerar uma vida, a fertilidade feminina está intrinsecamente ligada ao corpo com o qual cada mulher convive todos os dias. Saber e entender o que acontece com ele dá mais independência para ela tomar as decisões importantes da sua vida, com mais planejamento e segurança — seja para ter filhos ou não.

Fertilidade é um tabu? 

Sim. Você se imagina perguntando para alguém ‘Oi, você sabe como está a sua fertilidade? Já parou para pensar que ela acaba?’. Dá uma sensação estranha, não?

Até recentemente, o papel social das mulheres era muito ancorado na reprodução (capacidade de gerar filhos). Hoje em dia, nós mulheres estamos tentando redefinir o nosso papel na sociedade. Isso ainda está em construção.

A fertilidade acaba sendo um tema tabu tanto no antigo, quanto no novo paradigma. No antigo, por se tratar de uma ‘obrigação’ feminina – não ser fértil costumava gerar um sentimento de inferioridade. No novo, por querermos tanto nos libertar dos antigos padrões, tentamos nos ‘libertar’ também da obrigação de ter filhos tão rápido. Com isso, acabamos negligenciando a nossa vida reprodutiva – não olhamos para ela e focamos toda a nossa energia em outros aspectos como educação, carreira, estética. Acabamos por não parar para pensar que a nossa fertilidade é um aspecto importante da nossa saúde e que ela é biologicamente finita. Por isso, ter esse conhecimento nos dá a autonomia necessária para planejarmos a nossa vida de acordo com o nosso ritmo e nossas prioridades.

Eu sinto que a fertilidade masculina também é um tabu. Fica um pouco mais difícil para eu comentar sobre, pois me identifico como mulher cis. Mas, tenho lido muitos artigos científicos sobre o aumento de casos de infertilidade masculina. Ao mesmo tempo, ainda não tive nenhuma conversa com um homem sobre isso. Nem com os mais próximos.

Com relação ao diagnóstico, o que acontece se a mulher descobre ser infértil? Qual tipo de suporte a Oya Care oferece e quais tratamentos disponíveis? 

Com a Oya, as mulheres têm a oportunidade de dar o primeiro passo em direção ao conhecimento aprofundado sobre a sua fertilidade. É como se fosse uma ‘triagem’. Se entendermos que pode haver problemas de fertilidade (como suspeita de infertilidade, por exemplo), recomendamos que a oyana se consulte com uma médica especialista em reprodução humana. É uma fase muito delicada, e tentamos ajudar de todas as maneiras. Hoje em dia, oferecemos para a oyana uma lista curada de clínicas e médicos em que confiamos, e até ajudamos no agendamento de horário, se for do interesse dela. A ideia é que, a partir do momento em que uma mulher vira ‘oyana’, ela siga contando com o apoio da Oya enquanto precisar ou desejar.

O que ninguém fala sobre o tratamento de fertilidade?

O nosso corpo é único, cada qual com sua história, suas marcas e suas vivências. Cada mulher tem o seu contexto de vida e, por isso, cada fertilidade é única. Logo, seguir recomendações abrangentes pode não ser muito eficaz para algumas mulheres. Os tratamentos de fertilidade precisam ser adequados para cada pessoa. Além disso, existem diversos tipos de tratamentos de fertilidade, e uma variedade de qualidade de médicos e clínicas. Navegar neste mundo não é fácil, e a Oya está aqui para ajudar com isso também.

Além da fertilidade, a Oya Care vai oferecer outras investigações / diagnósticos? 

Sim. Acredito no autoconhecimento e autocuidado como forma de autonomia feminina. Por mais que o primeiro serviço da Oya Care esteja diretamente relacionado à fertilidade, a ideia é que o negócio se torne uma referência para todas as mulheres que buscam saber mais sobre seus corpos — e assim, sobre si mesmas.

Falando em tecnologia e startups, como foi / tem sido para você se inserir e atuar nesse meio tech como mulher empreendedora? 

Tem sido uma aventura. Eu me formei, trabalhei em alguns lugares, mas sempre tive vontade de empreender e me preparei para isso. Mesmo assim, eu percebo um movimento dos homens do ecossistema e os meus contatos profissionais me oferecerem dicas e recomendarem cursos e programas direcionados para mulheres. Eu agradeço, mas não acho que sou o foco. Sou privilegiada e tenho consciência disso. Mas eles têm mais dificuldade em me enxergar como uma igual. Por isso, o fato de ser mulher, ora é vantajoso, ora não. Ainda não sei o saldo final, mas o que eu queria mesmo é que não fizesse diferença (ser ou não mulher). Enquanto não chegamos nesse momento do mercado, em vez de criticar os homens, eu foco em ajudar mulheres. Fico muito feliz quando recebo ajuda de mulheres que eu admiro e tento fazer o que posso para ajudar outras empreendedoras do ecossistema também.

Qual é o principal desafio de empreender? O que te motiva a continuar? 

O maior desafio, para mim, é me manter em equilíbrio. Como ser humano mesmo. Entender que o dia tem só 24h e que o meu corpo e a minha mente são humanas (e não máquinas, sobre-humanas). Para me organizar neste sentido, procuro fazer exercícios todos os dias pela manhã, nem que seja um alongamento simples (é mais difícil fazer exercício nos primeiros dias de menstruação). E, quando sento para trabalhar, tento organizar as minhas prioridades da melhor forma possível.

Outro desafio que encontrei algumas vezes foram observações sobre o produto/empresa ancoradas em pontos de vista masculinos sobre o mundo. Eu procuro entender o contexto social e usar as emoções (que afloram nesses momentos) como motivação. Eu sei que teremos que mostrar que saúde feminina é um tema real e importante, não um nicho.

O que mais me motiva a continuar são os depoimentos de mulheres que passaram pela nossa jornada ou foram positivamente impactadas pelo nosso conteúdo.

Algum conselho para novas empreendedoras?

Se você tem uma ideia com a qual se conecta profundamente, siga o seu coração e arrisque. Se vista de coragem e dê o primeiro passo – seja ele qual for. No geral, os homens foram mais estimulados durante a vida a exercer a coragem e aprenderam a arriscar muito mais. Nós mulheres tendemos a dar um passo só quando já verificamos tudo e temos a certeza de que nada vai dar errado. E isso não existe. Se é o medo do desconhecido ou receio de ‘dar errado’ que está te segurando, reconheça isso e deixe de lado. Me manda uma mensagem no LinkedIn! Às vezes demoro para responder, mas posso tentar ajudar!

 

site: www.oya.care

instagram: @oya.care

Photo: Nathalie.Artaxo 

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