Como foi passar o lockdown em Milão em família, por uma leitora do lolla

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Faz meses que falei com a Rosa sobre escrever esse texto para contar sobre o lockdown na Itália, mas eu precisava me sentir pronta para escrever. Esperei certos milestones, como o fim do lockdown e a diminuição das restrições mais ainda não conseguia – precisei esperar chegar as férias de verão para isso!

Antes de seguir com o texto quero lembrar uma coisa importante: toda vez que reclamo de alguma dificuldade relacionada com esse momento penso nas pessoas que morreram, que estão sofrendo no hospital ou que perderam entes queridos. Ou naqueles que perderam a fonte de renda, negócios que fecharam e sinto quase que não posso reclamar. Depois penso que todo mundo tem direito de sentir a sua dor, mas é sempre importante ter essa perspectiva. 

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Praticamente minha última saída antes da pandemia, fui almoçar em um novo restaurante brasileiro em Milão e depois passei na Casa della Memoria, onde tem essa instalação sobre os campos de concentração.

Já no início de 2020 começamos a escutar desse vírus que estava atingindo a China, ainda parecia algo muito longe. Passei a ser mais atenta com certas coisas como evitar chegar muito perto das pessoas e lavar as mãos com maior frequência, mas até então era vida normal. Tivemos alguns casos isolados na Itália que não chegaram a transmitir para outras pessoas e se falava do aumento do racismo com orientais. 

Chegou o final de fevereiro e uma notícia teve destaque absoluto: um homem saudável, esportista com menos de 40 anos, sem ter visitado a China nos últimos tempos, estava internado em estado grave e confirmavam que contaminado com o famigerado COVID. No começo não queriam nem testar e foi por insistência de uma médica que ignoraram o protocolo e fizeram o teste mesmo sem ele ter ido a China. As mulheres realmente vão salvar o mundo…

Em poucos dias, descobriram muitas pessoas doentes depois de terem entrado em contato com o “paciente um” e começaram a pipocar as primeiras mortes – algumas confirmadas post-mortem. Os casos aumentavam exponencialmente. Comecei a ficar aflita e lembro de ter aplicado prova naquela sexta-feira, 21 de fevereiro, em uma sala de aula fechada com pelo menos 60 alunos. 

No final de semana os casos e mortes continuaram a aumentar, passamos a trabalhar de casa na semana seguinte, quando foi confirmado que a escolas e universidades seriam fechadas. Foram feitas algumas restrições em bares e restaurantes e foi incentivado o home office que já é tão familiar 6 meses depois. 

Os quinze dias seguintes foram muito estranhos, começaram com um total pânico e pessoas que corriam aos supermercados e foi evoluindo para “precisamos salvar a economia” e momentos de “é só uma gripezinha”. Pairava uma dúvida no ar, gente que estava fechada em casa e gente que depois de dois dias continuava levar a vida normal, bloggers de turismo que garantiam aos incautos que estava tudo bem aqui na Itália e um monte de gente lotando as estações de esqui. O epicentro do coronavírus na Itália foi na região de Milão, onde eu moro, e a interpretação é que havia uma especie de barreira imaginaria impedindo a chegada do vírus nas outras regiões, de tão imaginável que era. 

Enquanto isso os doentes cresciam e alguns hospitais já começavam a lidar com falta de leitos, e foi então que veio aquele fatídico final de semana do 8 de março quando o governo italiano instituiu o lockdown. O decreto vazou algumas horas antes e muitas pessoas correram para as estações de trem para voltar para as suas cidades, como foi registrado em toda a mídia internacional…

Até então eu já estava fechada em casa e me virando com supermercado online, que estava bem complicado com o aumento da demanda, e foi a minha assinatura de feira orgânica online que me salvou – até fralda vegana eu comprei! Psicologicamente o lockdown foi muito difícil, uma coisa é você estar em casa voluntariamente outra coisa é saber que não pode sair. Durante esse período só os serviços essenciais estavam abertos e podíamos sair de casa apenas para fazer compras no supermercado – algo que eu consegui evitar. Sair de casa sem justificativa poderia custar uma multa e tinha um certo controle no período. 

Nesse momento foi muito importante o papel dos governantes, o premier Conte fez inúmeros pronunciamentos para explicar a situação e tranquilizar a nação virando o rei da internet inclusive com uma fanpage (@lebimbedigiuseppeconte). O mesmo para o prefeito de Milão, Beppe Sala, que todo dia fazia um pronunciamento ao vivo – eu me acostumei com o seu “Buongiorno dal Palazzo Marino”. Ele inclusive pediu desculpas por ter diminuído o perigo da pandemia no início. O presidente italiano, Matarella, que normalmente faz pronunciamento só no Natal, também foi na televisão para tranquilizar as pessoas. 

Foi um período estranho, mas acho que foi muito necessário conter a epidemia sem precisar contar com o bom senso da população, que nem sempre funciona. Vale ressaltar que a situação na Lombardia foi particularmente brutal. Foi também um período que mesmo ficando em casa senti um senso de união, as pessoas colocaram a bandeira da Itália nas varandas, cantavam o hino, aplaudiam o pessoal de serviços sanitário. Tutto andrà bene, se dizia.

O sentimento durante o lockdown foi um tanto blur, alternando em momentos de angústia – crises de ansiedade foram uma frequência e cheguei a contatar uma psicóloga duas vezes – e momentos de escapismo. Fizemos yoga com vídeos online, pães, bolos, pasta feita em casa e competições de dança. Ah, e lives! Participei de três sobre o meu trabalho, manejo de águas pluviais. 

Trabalhar com crianças foi o grande desafio durante esse período mas senti uma certa compreensão, algumas deadlines foram estendidas e a gente fazia o que dava. Eu dei aulas online durante todo o período e além de me acostumar com a ferramenta o difícil mesmo foi manter as crianças longe do quarto – nem sempre eu conseguia.

Oficialmente a fase 2 começou no início de maio e foi uma retomada gradual na direção da vida “normal”, ou o novo normal, como estão falando. Foram aos poucos abrindo fábricas, lojas, foi permitido frequentar os parques – tudo com a máscara cobrindo o rosto. Eu esperei algumas semanas antes de sair e a primeira vez que fomos a um parque foi uma experiencia indescritível! Correr, sentar-se na grama, sentir o sol no rosto… pequenas coisas que valorizamos mais ainda depois de um longo inverno. Nós passamos o período do lockdown sem sair de casa para nada, no segundo mês, no máximo íamos até o jardim do prédio porque todos nós precisávamos respirar um pouco. 

 Quando liberaram viajar entre regiões, resolvemos passar um fim de semana na praia, indo de carro e alugando uma casa para evitar ao máximo contato com pessoas fora do nosso núcleo familiar. Que delícia que foi! A primeira viagem à praia no ano é sempre uma emoção, mas esse ano foi algo especial! Fomos para Viareggio, na costa da Versilia, na Toscana. É uma região balnearia muito popular entre as pessoas do norte da Itália. Já dava para sentir o alivio e avistar a luz no fim do túnel.

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Primeira viagem pós lockdown quando fomos para Viareggio, na costa da Toscana.

Na fase 2 parece que em parte a vida voltou ao normal, o telefone do meu marido que atua no mercado imobiliário voltou a tocar como antes. Os escritórios começaram a voltar com capacidade reduzida e quem podia continuar trabalhando em casa continuou, mas os deadlines voltaram. Teve também um fenômeno de fuga para fora dos centros urbanos, quem podia optou por trabalhar de casa, mas com vista! Nessa fase os pais sem dúvida saíram prejudicados… eu trabalhei durante todo o lockdown, alguns projetos em menor intensidade. Foi nesse período que tive a pior das crises de ansiedade: quando juntou uma serie de cobranças e o fato de que não conseguia trabalhar… Eu adoro meu trabalho e não produzir como gostaria me deixa muito angustiada.

A gente também começou a procurar uma casa fora da cidade, principalmente com a chegada do verão. Depois de refletir muito percebi que mesmo com a melhora da situação epidemiológica eu ainda não me sinto tranquila em frequentar lugares cheios, restaurantes fechados e hotéis, preferi optar por uma casa em uma cidade de montanha. Aqui as pessoas gostam muito de frequentar as regiões montanhosas, não só no inverno, mas também no verão quando as temperaturas são amenas e podemos passear nas trilhar no meio da natureza.

Chegando o verão e com a gente já instalado em uma casinha na montanha, as regras afrouxaram ainda mais, as máscaras são obrigatórias apenas nos lugares fechados e quase tudo voltou, com algumas exceções como as discotecas que continuam fechadas. As pessoas estão mais tranquilas, parece que a vida já voltou bem ao normal e por enquanto os números estão baixos ainda que o nível de atenção continua. O pediatra dos meus filhos comentou que o protocolo atual para qualquer caso de febre – mesma coisa com os adultos – deve ser notificado para o serviço sanitário e eles testam para coronavírus.

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Aqui o verão marca o fim do ano escolar, início das férias e eu tenho uma sensação de fim de ano mais forte que em dezembro. Agora que praticamente finalizei as tarefas mais importantes no trabalho que consegui finalmente escrever esse texto. A sensação é que o ano acabou sem que a gente concluísse a maior parte dos projetos e programas imaginados, no trabalho consegui fazer só o essencial e tive que abandonar projetos que eu tinha muito carinho, gritei com meus filhos muito mais do que eu gostaria, teve MUITA televisão e videogame, não voltei a praticar atividades físicas… Mas tento entender que esse ano, gostando ou não, foi assim, e lembrar da tal perspectiva que comentei lá em cima. Muito se fala sobre as lições da pandemia, não sei se tenho ilusão que a humanidade vai mudar. Ainda temos muitas duvidas para o novo ano, se as escolas vão reabrir, quando e se a gente vai voltar a ter a vida de antes, mas nesse momento penso que eu e a grande maioria das pessoas na Itália querem só relaxar um pouco e aproveitar o verão desse 2020 que ninguém sonhou!


Mariana Marchioni – Me mudei para a Itália em 2013 para fazer um doutorado e quando vi tinha um companheiro e dois filhos! Nós seguimos morando em Milão, onde eu trabalho como pesquisadora no Politecnico di Milano e tento manter  o equilíbrio entre casa, marido, filhos e carreira – nem sempre conseguindo…Gostamos na mesma medida de conhecer lugares novos e viajar para o mesmo lugar várias vezes, ou ficar em casa assistindo Netflix. 

Lolla Team

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