Keep Your Distance

Maria Claudia Cassou

Dia desses me deparei com o seguinte trecho, extraído do livro “O Profeta" do escritor libanês Gilbran Kalil Gilbran:

“Vocês nasceram juntos e juntos para sempre ficarão.

Devem ficar juntos quando as alvas asas da morte minguarem seus dias.

Sim, devem ficar juntos até na memória silenciosa de Deus.

Mas permitam que haja espaço na união.

E permitam que entre vocês os ventos dos céus dancem.

Amem um ao outro, mas não façam do amor uma amarra:

Deixem que seja um mar que se move entre as margens da alma.

Encham a taça um do outro, mas não bebam de uma taça só.

Deem um ao outro pão, mas não comam da mesma fatia.

Cantem e dancem com alegria, mas deixem que cada um viva só, em sua própria companhia,

Assim como as cordas do alaúde são únicas, embora vibrem na mesma melodia.

Entreguem seu coração, mas não à posse um do outro.

Pois só na mão da Vida pode conter um coração.

E vivam juntos, mas não tão juntos,

Pois os pilares do templo foram feitos separados,

E o cipreste nunca cresce à sombra do carvalho."

Sempre me causa espanto quando vejo colocadas em palavras - de forma harmoniosa e bela - verdades que trago dentro de mim. Acredito que a grande magia da literatura acontece não apenas quando lemos as obras de um autor, mas sim quando vemos, refletidas nas suas palavras, idéias que trazemos dentro de nós - mesmo que inconscientemente. O excerto acima reflete uma ideia que sempre acreditei: a de que todos os relacionamentos, em especial os amorosos, precisam de espaço, precisam de respiro, precisam de vãos para que aqueles que se relacionam, cresçam. 

Dia desses me peguei pensando sobre isso. Uma das coisas que mais prezo no meu casamento - que este ano completou 15 anos - é a capacidade de respeitarmos um o espaço do outro. O quanto, apesar de todo o tempo, do tanto de filhos e da vida misturada que levamos, conseguimos preservar as nossas individualidades, nossas bolhas pessoais. Eu realmente não conseguiria conviver com uma pessoa que não me permitisse ser. Sou tão abençoada que tenho ao meu lado alguém que vai além: um companheiro que me incentiva a ser.

Acho que um bom - ainda que primário - exercício para avaliar a quantas anda a nossa individualidade é retomar a prática dos antigos cadernos de confidências da 3a. série do ensino fundamental, lembram? Aqueles que, em cada página, redigíamos uma pergunta pessoal, no intuito de “pescar" alguma confissão inconfessável dos colegas escolhidos para responder. Começava com perguntas bem bobas, como “Qual é a tua cor favorita?”, “Que sabor de pizza você prefere?” E avançava até chegar a questões mais existenciais como “O que você quer ser quando crescer?”, “Você gosta de alguém?" ou “Como você imagina que vai estar daqui 20 anos?”. - Pausa para uma consideração: se você não consegue responder a nenhuma dessas perguntas, te sugiro começar a repensar o teu processo de individuação.

É que o corre da vida, aliado a uma convivência intensa acaba, por vezes, nos forçando a “go with the flow” e abdicar que é nosso por direito: nossas vontades, nossas preferências, nossos desejos. Quantas vezes você não deixou de pedir a pizza de berinjela só porque o marido e os filhos preferiam a de calabresa? Topou assistir o “Dunkirk", quando na verdade queria mais era ver um capítulo de “Virgin River”? Desistiu daquele curso de fotografia porque aconteceria bem no dia do sagrado futebol semanal do marido e não tinha ninguém para ficar com as crianças? Pois é… aos poucos vamos deixando de lado essas pequenas oportunidades de firmarmos nossas identidades e de descobrirmos novos interesses porque é sempre mais trabalhoso delimitar o nosso espaço, é sempre mais difícil dizer "não, eu não quero isso" ou "sim, eu quero aquilo”. Se está difícil de responder de bate-pronto quais os teus gostos, acho prudente renovar a licença do auto-conhecimento.

Compartilho um ensinamento da maga dos relacionamentos, Esther Perel, a quem eu sempre recorro quando preciso: “O amor descansa em dois pilares: rendição e autonomia. Nossa necessidade de união existe ao lado da nossa necessidade de separação.” Segundo ela, a atração acontece exatamente neste ínterim: entre a rendição e a autonomia, nesse espaço de afastamento que devemos manter para que o interesse possa florescer.

Trocando em miúdos, a atração se alimenta do interesse e só nos interessamos por aquilo que nos causa curiosidade. Ninguém tem curiosidade por aquilo que domina por inteiro. Me causa estranheza casais que sabem absolutamente tudo um do outro, que querer esmiuçar cada centímetro da vida do companheiro. Tão bom guardar um pouco de mistério, ter uma parte reservada do nosso universo que não se comunica com o outro para que possamos usar de material de troca nos momentos de cumplicidade. Relacionamento bom é relacionamento que pratica o escambo, e para tanto, temos que ter um estoque, de preferencia bem cheio de novidades e boas surpresas, para trocar com aquele que amamos.

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