PRO CHOICE LOLLA - Opinião: Onde Erramos na Cultura Brasileira que Gera Tanta Violência Contra a Mulher?

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Após escutar avidamente o podcast “Praia dos Ossos”, me peguei refletindo sobre a relação da mulher e seu papel na sociedade brasileira. Branca Vianna instiga a pergunta para seus ouvintes: O que tem na cultura brasileira que gera tantos feminicídios? Minha mente divagou: desde a ilegalidade do aborto até a vida de uma adolescente, da religião para elite paulistana, terminando com pornografia. Foi longe. No entanto, na ociosidade tendem a aparecer as melhores reflexões.

Enquanto não conseguirmos a legalidade do aborto, a mulher nunca será responsável e dona do seu próprio corpo. Ter a opção da legalidade, não significa que você vai obrigatoriamente fazer uso desse direito, o importante é ter a possibilidade. Até porque, nessa sociedade desigual em que vivemos, convenhamos que os mais abastados se utilizam desse direito todos os dias nas clínicas particulares. Ainda que seja ilegal, na prática, essa ilegalidade é apenas sentida nas classes pobres que não têm acesso aos médicos privados. Por motivos óbvios, é justo nestas classes menos favorecidas que se concentra o maior número de feminicídios do país.

Enquanto o governo mantiver a ilegalidade do aborto, está dizendo à sociedade que a mulher não tem o direito de priorizar seu próprio futuro perante o seu corpo. O seu corpo é visto como “propriedade” ou “bem” do Estado ou dos demais – mas não dela. Estou considerando a legalidade do aborto no que é plausível para o corpo médico, ou seja, antes da gestação completar determinadas semanas, antes daquela semente de vida se transformar em um feto propriamente dito. Não quero entrar muito nesse tema, até porque ele é complexo demais e existem pessoas muito mais qualificadas para debater ou argumentar. Só quero colocar essa tese a frente. O corpo da mulher não pertence ao Estado, mas no inconsciente, enquanto o aborto é ilegal, é justamente essa mensagem que a sociedade transmite para as mulheres.

Quero fazer um pequeno parêntese sobre religião aqui. Acho perturbador a religião ter um papel tão grande em um Estado supostamente laico, mas, como sou judia, adoraria saber como a população em geral se sentiria se eu dissesse, por exemplo, que o porco está proibido a todos porque ele ofende às minhas crenças. Além do mais, se os pastores enraizados na política e na coleta de dízimo são crentes, não acreditam na vida pós morte? Deixem que os pecadores queimem. O que eles têm a ver com isso?

O Estado deveria garantir que todos tivessem liberdade religiosa. A religião não tem direito de impor sua moral na população como um todo. A moralidade pode, por muitas vezes, agredir a justiça e os fundamentos de progresso econômico de um país.

Do ponto de vista econômico, sim! Estudos mostram que a possibilidade do aborto, a longo prazo, reduz a criminalidade de uma sociedade. Além disso, se o Estado não permite o aborto, então ele deveria estar totalmente estruturado para acolher esses novos seres humanos, educá-los, dar amor e suporte…. coisas que sabemos que não acontece.

Voltemos a atenção agora para objetificação da mulher. Quando adolescente, me lembro almejando ter um corpo que nunca ia conseguir ter. Um peito que nunca cresceria naturalmente em nenhuma mulher. E hoje, aos 30 e muitos anos na cara, me deparo com mulheres ainda falando sobre regime, pavor de envelhecer, Botox… Mesmo com a idade, mulheres estão presas na ideia de que elas não têm valor se não forem admiradas como objetos para serem “quistas” pelo sexo masculino. A mulher só tem valor enquanto objeto de sedução? Em busca desta valorização, muitas se auto mutilam diariamente, seja com regimes infindáveis, cirurgias desnecessárias ou preenchimentos mil. Isso sem contar os inúmeros danos psíquicos de autoestima.

Acho que na classe média brasileira isso é muito escancarado: mulheres com seus cabelos alisados, peitos siliconados, senhoras que se tornam loiras, desde que nunca possuam um fio de cabelo branco. Não me interprete mal, acho muito positivo ter vaidade e se dar valor. Ter amor-próprio e sentir-se bonita. Não estou fazendo um ataque a vaidade, a feminilidade ou ao auto cuidado, mas uma coisa é se cuidar. Outra coisa é correr atrás de um perfil irreal inesgotável.

Agora, meu último devaneio: os benditos “xvideos” e sites de pornografia. Isso sim é uma afronta à moralidade. Enquanto a religião está em guerra com as mulheres, passam batidas as fantasias sexuais propostas por estes sites. “Colegial novinha”, “enteada gostosa”, “Meu tio transando…” Sabemos que a maioria das meninas jovens que sofrem abuso sexual, acontecem geralmente com pessoas que possuem alguma relação íntima com a família. Não é incomum o abuso de padrastos, tios, primos… E esses sites fazem exatamente isso: semeiam fantasias doentias e perversas de abuso sem nenhuma repreensão. Lembrando que esse site em particular tem isso justamente porque essa é a fantasia do brasileiro, ou seja, é sim um reflexo da fantasia sexual do nosso povo. É de causar calafrios. Os sites de pornografia podem propagandear e até impulsionar o abuso sexual, mas a mulher ainda não pode abortar uma gravidez indesejada.

E o que podemos fazer diante dessa bagagem cultural? Como podemos mudar isso? Voltamos a mesma pergunta de Branca Vianna no seu podcast sobre o feminicídio, da famosa Angela Diniz. Não sei ao certo, mas gostaria muito de começar pela legalização do aborto, a fiscalização de temas pornográficos e, o mais importante, com o ensinamento para mulheres sobre o seu valor perante a sociedade, de que vai muito além dos seus atributos físicos. Uma sociedade que dá valor as mulheres e sua real contribuição societária é uma sociedade evoluída que dará futuro ao seu povo. Não tenho uma resposta ainda, apenas um profundo descontentamento.

  1. I especially love the point that we, as a society, would benefit tremendously by just giving women more autonomy!

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