Como Conversar com uma Amiga que Sofreu um Aborto

E o essay da Meghan Markle sobre o estigma de falar sobre aborto espontâneo.

Ontem o New York Times publicou um essay da Meghan Markle de quebrar o coração, ela conta sobre o aborto espontâneo que sofreu em meio a pandemia. Fiquei pensando nela e nas pessoas que eu amo, que já passaram por esse evento delicadamente triste, e que não encontra um lugar determinado no mundo dos sentimentos.

Sofrer um aborto espontâneo deve ser um dos grandes wake up calls que mostram que não temos controle de nada, o tipo de coisa que faz você questionar a presença de D’us ou ao contrário, se agarra a uma crença para aceitar este fato, já que o plano concreto não consegue te dar uma resposta.

Mas quando ele acontece no comecinho da gravidez, talvez por não ser ainda real aos olhos externos, o luto é silencioso e acontece quase que em um mundo paralelo, cheio de estigmas. Imagino que seja como ficar de luto por uma ideia que não aconteceu e não por algo concreto e talvez por isso mesmo, esse luto não gera tanta empatia nas pessoas. Ou pode gerar, mas ninguém sabe exatamente como agir e tenta passar conforto reduzindo o acontecimento a estatísticas. Eu provavelmente já fiz isso em uma tentativa de tentar cheer up uma amiga que sofreu um aborto, como se o fato de ser “comum” diminuísse a dor. Big mistake.

Acho que a minha é a primeira geração que começou a debater mais os próprios sentimentos abertamente na sociedade e na internet, para o horror de mães e avós tradicionais. Bom, não só elas como boa parte da internet que teve uma reação horrível quando a Chrissy Teigen postou sobre a perda do bebê com 20 semanas de gestação. Aposto que elas não sabem que é Brené Brown e estão perdendo uma baita oportunidade de criar vínculos pela vulnerabilidade.

Perguntei para algumas amigas o que elas gostariam de ter escutado na época que passaram por essa experiência dolorida e muitas vezes solitária. O que todas me disseram em comum foi a constatação de que falar sobre isso é muito saudável e importante. Dividir cria vínculos e faz você se sentir menos sozinha. 

Não trate como se fosse “comum”. Acontece bastante, mas nem por isso é natural, o natural seria exatamente o oposto. Você nunca sabe quais eram as expectativas daquela mãe, quanto tempo ela está sonhando em engravidar, se foi fácil ou se foi um longo caminho. Uma amiga disse “Um mês e meio de gravidez são 45 dias pensando 24h naquele bebê” e de repente isso acaba. Você precisa de tempo para aceitar a nova realidade e dar um reset, voltar para a sua vida antes dessa ideia linda com bochechas cor de rosa e cheia de luz ser tirada de você sem aviso prévio.

Pergunte sobre a gravidez. Pessoas gostam de falar sobre elas, faz bem dividir e falar sobre como se sentiram. Faz parte do processo de luto, se expressar pode ser de uma ajuda imensa, tirar aquilo que está engatado no coração não é uma solução instantânea, mas a troca ajuda na cura de traumas.

Ajude com a culpa. Minhas consultas ao pediatra sempre são acompanhadas de perguntas como “poderia ter feito alguma coisa para evitar que essas bolinhas horrorosas surgissem na pele perfeita e delicada do meu filho?”. Nos culpamos por tudo, sempre achamos que poderíamos ter feito mais e em muitas casos poderíamos mesmo, mas pra isso outras áreas da vida ficariam descobertas e seria apenas transferencia de culpa. Imagina em uma situação tão abstrata quanto um aborto espontâneo do inicio da gravidez? Ela com certeza vai se perguntar o que poderia ter feito de diferente e isso apenas não é justo. Provavelmente a culpa vai estar lá pra sempre, mas se você puder diminuir que seja um pouquinho, já vai ser uma grande amiga.

Cuidado com clichês. Eles são vulgares e não ajudam em nada. Em casos como esse podem soar até de forma egoísta, tipo falar coisas como “agora você pode se cuidar melhor/emagrecer/comer mais proteína/reduzir o stress/whatever”. Evite a qualquer custo.

Acho que no fim das contas, tentar ser natural, não ser awkward, não fazer sobre você e sim sobre a outra pessoa já é um bom caminho. A gente não sabe agir direito socialmente nessas situações porque ninguém fala sobre isso, não aprendemos como lidar, é difícil mesmo. Mas acredito muito, em um clichê, com desculpas antecipadas: As conversas que você não quer ter são as conversas que você precisa ter. 

 

Rosa Zaborowsky

by Rosa Zaborowsky

Editor & Founder of Lolla.

Comentários

  1. Acho q nossa geração acordou pro fato de que a mulher tem sentimentos e a gente começou a se sentir com força pra falar. Eu sofri 2 abortos espontâneos e no primeiro senti um vazio muito estranho. Meu marido ficou mudo durante uma semana. Próximo passo é ajudar nossos meninos (até os maridos!) a falarem sobre sentimentos.

    • Tata, com certeza. Acho que faltou incluir os maridos/pais nesse texto, eles sofrem sozinhos e alguns não tem ideia de como lidar com esse problema.

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