Uma receita para viver o momento, especialmente viajando.

ago 8, 2019

Lembro da primeira vez que li sobre “choque cultural” e como deveríamos nos entregar à experiência de estar em um lugar totalmente desconhecido. Ao invés de comparar, observar, reclamar, conhecer, criticar, respeitar, precisamos nos esvaziar para que a experiência nos preencha.

Comecei a pensar nesse movimento de entrega durante as aulas de yoga. Atualmente, no novo lugar que frequento, tem um relógio na sala, sempre que me pego olhando para ele percebo que a aula passa mais devagar, pois não há entrega da minha parte. Assim também acontece com a vida, num momento de entrega, seja no trabalho ou quando estou muito feliz fazendo algo, o tempo voa, caso contrário, passa arrastado.

Aos dez anos ganhei no ballet o prêmio “Aluna Nota 10!”, que foi uma premiação simbólica para presentear a aluna mais disciplinada, ou seja: a aluna perfeita. Você deveria ser pontual, estar com o uniforme completo, o coque polido e se comportar muito bem durante a aula. Fui impecável durante todos os dias do desafio, que passou num piscar de olhos (exceto para minha mãe). Se esse prêmio fosse hoje na yoga, eu não ganharia. Se já cheguei atrasada? Sim, e quase perdi a meditação inicial, além disso tive de entrar e me deitar correndo, evitando que alguém pudesse notar a gafe. Se já fui com roupa errada? Também! Lembro de quando fui com uma calça de moletom e quase arrebentei a costura dela fazendo uma postura. Se deixei o cabelo solto durante as posturas de cabeça pra baixo? Muitas vezes. E como já mencionei, às vezes simplesmente não me entrego, seja por olhar o relógio ou por respeitar os limites do meu corpo cansado.

Sempre fui o tipo de pessoa que quer estar atenta e acompanhar tudo o que acontece ao meu redor, pois bem, continuo assim nas aulas de yoga: com um olhar vigilante. No entanto, o que mais me chamou a atenção recentemente durante as aulas foram as alunas novas que já chegam “se entregando”. Às vezes elas estão tão entregues, respirando de olhos fechados, que não notam como estão errando as posturas. Meu olhar vigilante percebe esses pequenos atos com curiosidade pois eu queria me entregar assim, logo de cara, mas às vezes sou incapaz de deixar as preocupações do lado de fora, como sugere a meditação inicial.

Comprei recentemente um livro do Osho chamando “Intimidade: como confiar em si mesmo e nos outros”, foi indicação da minha endócrinologista… É o tipo de livro eu releio outra e outra vez, cada página, porque quero absorver aquilo; seu conteúdo é precioso. Ele fala sobre a necessidade de sermos honestos em um relacionamento, sobre entender a linguagem do silêncio… Enfim, muitos ensinamentos. Até agora minha passagem preferida foi sobre a privacidade. Não por acaso ele menciona Marilyn Monroe, personalidade que sempre admirei com muito carinho, mas não é ela a estrela da passagem… é a entrega.

“Tudo que é bonito é interior, e o interior significa privacidade. Você observou as mulheres fazendo amor? Elas sempre fecham os olhos. Elas sabem o que fazem. (…) Mas a mulher sabe mais do amor porque ela está mais sutilmente sintonizada com o interior. Ela sempre fecha os olhos. Então o amor tem um perfume diferente” (Osho).

Entregar-se à experiência, especialmente por meio dos sentidos não é algo exclusivo do amor, é algo a ser aplicado no dia a dia também. Os exemplos que ele mesmo menciona são simples: jantar a luz de velas aguça o paladar, tomar banho de luz apagada nos faz prestar atenção ao barulho da água. Adoro esse exemplo pois acho que um dos meus maiores momentos de relaxamento durante uma semana intensa de trabalho é quando eu tomo banho. A luz apagada, uma vela perfumada, a temperatura da água perfeita e uma trilha sonora equilibrada (btw: adoro a trilha sonora de Outono em Nova York, a música Elegy for Charlotte é perfeita para um momento assim!). Essa combinação ativa os sentidos. Não é como o relaxamento da yoga, que me ajuda para focar no dia, mas é o que ajuda a me conectar comigo e desconectar do mundo.

Quando nos entregamos aos momentos, e aguçamos os sentidos, estamos criando um mecanismo para relembrar essas memórias no futuro. Adoro como um cheiro, uma música ou um sabor podem me transportar à um lugar diferente e ativar memórias tão maravilhosas que são quase mágicas. O cheiro de linho me lembra a casa que morei em Cambridge. Ouvir Hozier me leva ao quarto cor-de-rosa que habitei em Cuba, enquanto ouvir Chet Faker me transporta diretamente para uma noite fria na Locker Room, meu dance club favorito em Londres. Toda vez que como o queijo “La Vache Qui Rit” lembro de uma noite solitária no aeroporto da Etiópia, me questionando sobre o que estava por vir nos próximos meses na Índia. Pizza supreme, coca cola zero e cheesecake de chocolate são uma passagem sem escalas para o meu primeiro intercâmbio. O cheiro das flores da Rua Coronel Quirino me leva a memórias de infância na casa da Vó Ana, em outra cidade.

Acredito que uma viagem facilita a entrega, porque estamos ávidos pelo que vamos encontrar naquele lugar, mas podemos praticar isso no dia a dia. Precisamos entrar em sintonia diária com o nosso interior a fim de guardar mais lembranças e preservar esses momentos para que eles também tenham um perfume diferente, seja para focarmos em alguma atividade ou desligarmos do mundo e nos conectarmos com nós mesmos.

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by Helena Vilela

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