O que Aprendi ao Passar uma Semana em Silêncio num Retiro Católico no Interior da França

jun 6, 2019

por Amanda Pessoa

No último dia 2 de março, estive em Lyon e encontrei uma grande amiga que mora lá. Ela tinha voltado fazia pouco tempo de uma semana em Flatière, uma espécie de monastério católico, que fica perto de Chamonix, de frente para o Mont Blanc. Estávamos fazendo um lanche, quando ela começou a dividir comigo um pouco da experiência que teve. Enquanto Valéria falava, uma aflição começou a tomar conta de mim e eu só conseguia pensar que precisava fazer a mesma coisa.

Cheguei a São Paulo no dia 4 e o que ouvi seguiu ressoando dentro de mim, como um eco sem fim. No dia seguinte, eu me inscrevi para passar uma semana no retiro de silêncio da Flatière. Os retiros lá são temáticos; o meu começaria no dia 27 de maio e teria como tema “Com Maria, seguimos Jesus” (Avec Marie, suivre Jésus).

Na véspera do retiro, não consegui fazer nada a não ser chorar. Passei o dia inteiro chorando compulsivamente, como não me lembro de ter chorado nesta vida. Naquele momento, tive dúvidas de estar fazendo a coisa certa, de ter tomado a melhor decisão ao ter inventado de me fechar literalmente do mundo por uma semana. François, um amigo francês que coincidentemente fez esse retiro há cerca de vinte anos, disse que era normal eu estar daquele jeito e que todo mundo que vai à Flatière busca alguma coisa. Não me vi nessa frase. Não achava que estava buscando alguma coisa. Na verdade, em momento algum pensei que estava indo ao retiro por alguma razão específica; apenas senti que era algo que precisava fazer.

Na segunda, dia 27 de maio, saí de Paris e peguei o primeiro dos três trens que me levaram a Saint Gervais les Bains, de onde peguei um ônibus até Houches e, em seguida, um micro-ônibus até a Flatière. Durante o percurso, troquei algumas mensagens com algumas poucas pessoas e chorei o tempo praticamente todo. Eu estava apavorada, mas não sei explicar exatamente por quê. Não era o fato de estar prestes a não falar com ninguém por uma semana que me incomodava. Acho que o não saber o que ia acontecer foi o que me fez ficar com medo de como seriam meus dias seguintes. Não tinha ideia de nada.

E também não sei dizer como me senti assim que cheguei lá. Eu nunca tinha visto o Mont Blanc ao vivo, e nunca tinha passado pela minha cabeça que o veria de tão perto. Sua grandiosidade, em vez de me assustar, fez com que me sentisse abraçada.

Depois de ver que, mesmo em silêncio, estava acompanhada de tantas pessoas que também escolheram fazer a mesma coisa que eu, finalmente entendi que não precisava ter medo. Entendi que ficar em silêncio não era apenas entrar num estado de mudez, mas sentir-se confortável consigo. E então comecei a viver o significado do retiro.

Dois dias depois, eu me dei conta de que nada que ouvi de Valéria ou de François poderiam ter me preparado para o que comecei a sentir na Flatière. Ainda assim, a cada refeição, quando alguém apontava para uma das cestas de pães que ficavam na mesa, eu me lembrava de François, que me disse que esse comportamento seria parte importante do silêncio francês. E, a cada vez, eu sorria e me emocionava. A cada santa vez. A cada vez que entrava no meu quarto e via o Mont Blanc na minha frente, eu me lembrava de Valéria, que falou de forma tão simples e profunda sobre o que a contemplação do monte fez por ela. A cada santa vez.

Enquanto estava na Flatière, vi o que muitos viram antes de mim, mas vivi algo único. Senti que estava intimamente conectada a cada pessoa que estava lá ao mesmo tempo que eu, como se todos fôssemos parte de uma mesma entidade. Acredito que somos, de fato.

Entendi que o comunicar-se acontece de inúmeras maneiras e que somos capazes de dar e receber amor sem precisar verbalizar qualquer som. Por meio de um olhar, de um toque, de uma oração – esses são apenas alguns exemplos óbvios de como podemos amar o outro e nos permitir ser amados também.

Porém o que mais me impressionou foi eu não ter sentido falta de ninguém enquanto estava lá. Quando me dei conta disso, compreendi por que algumas pessoas largam tudo, sua família, seu trabalho, para abraçar uma vida dedicada a Deus, completamente devota a Deus. Viver em paz, cercado de amor, com Deus dando prova de sua existência todo o tempo é inebriante. Acho que finalmente percebi que, de maneira concreta, é possível abrir mão do caos e escolher ficar em paz.

por Amanda Pessoa

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