About Slowing Down

out 10, 2019

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Não era ainda tão tarde, mas eu já estava exausta, prostrada no sofá, checando umas mensagens no meu celular quando chamei meu marido porque lembrei que precisava falar com ele sobre um tema de grande importância.  Não é sempre que acontece, mas neste dia ele ganhou vários pontinhos comigo: parou prontamente o que estava fazendo e veio me escutar! Porém nem bem ele se sentou ao meu lado todo ouvidos, o assunto que era mega blaster relevante simplesmente evaporou! Puft! Não havia raios que me fizesse lembrar o que há um segundo estava na ponta da língua.  Fui rever minhas mensagens tentando achar uma pista, algo urgente que precisasse ser resolvido, uma decisão que demandasse a opinião dele… Revirei tudo, aproveitei para fechar as quatrocentas e setenta telas que estavam abertas, mas não houve jeito. O assunto importante teve que ficar para depois – se é que algum dia ele venha a ressurgir das trevas dos meus neurônios.  

Sei que esta é uma situação comum da vida, mas nem por isso deixei de me preocupar. Nosso cérebro é como um hardware e apesar de extremamente poderoso, tem também suas limitações.  Não há mente que funcione no seu melhor potencial com a quantidade de pensamentos, estímulos e conteúdos (maravilhosos, diga-se de passagem) a que somos submetidos todos os dias. A equação é simples: a vida hoje em dia tem mais gigas do que o servidor que fica dentro da nossa caixa craniana consegue processar.  É bem verdade que nossa Nuvem cerebral também é elástica e temos o poder de ampliar nossa capacidade de processamento: a conexão com a natureza ajuda a apagar o lixo acumulado, a meditação nos rende centenas de HDs adicionais, dormir uma boa noite de sono contribui com um reset profundo, e definitivamente quanto mais conhecimento adquirirmos, mais conexões conseguimos fazer, mas ainda assim: tem hora que a maquininha vai enguiçar!  Mesmo que não tenhamos um burn out (são poucos os que se permitem), o excesso de informações pode nos tirar a energia, a presença e o frescor das ideias.  

Sei que existe toda uma cultura que nos leva a acreditar que quanto mais conteúdo melhor, e eu já me peguei algumas vezes com uma ansiedade para dar conta da lista de filmes, livros, séries, podcasts, TEDs e vídeos que eu amaria assistir, ler ou ouvir. Mas cada pessoa e cada organismo tem suas particularidades, e já entendi que para mim, este consumismo cultural ou intelectual exacerbado pode ser uma falácia.  Algumas amigas brincam comigo pelo fato de eu ser uma pessoa desligada, daquelas que são sempre a última a entender a piada. Mas hoje que me conheço um pouquinho melhor, sei que (infelizmente) não se trata de uma questão de viver no mundo da lua. Talvez a questão seja exatamente oposta: um estímulo pode me “ligar” de tal maneira e absorver tão intensamente minha capacidade de processamento, fico tão absorvida, que simplesmente não dou conta de acompanhar o ritmo de uma conversa – ou de uma vida – muito frenética. Preciso das pausas para processar, preciso de momentos de silêncio para sonhar e me identifico demais com a corrente que diz que o multitasking é um mito. Na verdade, não acredito que seja necessariamente um mito, mas acho que está ligado a uma preferência individual. Sou daquelas que prefiro (e preciso) deixar algumas possibilidades de lado para realmente apreciar as coisas que escolhi fazer.  Já faz bastante tempo que li o livro de Carl Honore, jornalista que ajuda a difundir os movimentos Slow (slow living, slow food, slow parenting, etc.) e vira e mexe me vejo voltando a estes conceitos para me reequilibrar. Fazer menos coisas – e cada uma com mais presença e atenção – ainda parece uma utopia para mim (e cada vez mais difícil), mas segue sendo meu Norte. Devagar e sempre, um dia ainda chego lá.

Para quem quiser, Carl Honore também tem um TED Talk

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by Shelly Bronstein

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