2c64c454345d087908a7fbb757ecf8e5 - Alice no País das Maravilhas: O Mundo das Regras e o Universo da Imaginação e do Nonsense

Alice sou eu

Por volta dos 16 anos comecei a dar aulas de inglês em uma escola de Curitiba. As palavras e os idiomas sempre foram uma grande paixão – nessa idade, além do inglês, eu já dominava o francês e o italiano. Desencorajada a prestar vestibular de Letras por ser um curso que não ofereceria grandes perspectivas profissionais, passei em Direito antes de completar 18 anos. Terminei a faculdade, fui aprovada no Exame da Ordem, mesmo sabendo que não atuaria como advogada. Fiz uma pós em administração de empresas e estando completamente perdida resolvi fazer vestibular novamente, desta vez para arquitetura. No meio da faculdade casei e tranquei o curso para acompanhar meu marido em seu MBA nos EUA. Enquanto estava fora do país, fiz um curso de decoração de interiores, voltei e cursei arquitetura até o quarto ano, quando nasceu meu primeiro filho. Emendei um filho no outro, acabei não finalizando arquitetura, mas à época já tinha começado a trabalhar em alguns projetos de interiores. Impossibilitada de assinar projetos por não ter terminado o curso, e completamente dominada pelo universo da maternidade, resolvi em 2014 abrir um e-commerce de produtos de decoração infantil. Por quase cinco anos vivi o que foi, praticamente, uma faculdade de administração integrada a um treinamento intensivo de força de vontade – empreendedores brasileiros entenderão. Quando eu percebi que a empresa, nos moldes que estava estruturada, nunca se sustentaria, resolvi encerrar. Nessa mesma época engravidei da minha terceira filha e parei de trabalhar. Em seguida veio a pandemia.

Lendo esse parágrafo introdutório, onde relato de forma sucinta porém muito sincera (e porque não, corajosa), toda a minha errante trajetória profissional, pode você imaginar, caro leitor, o soco no estômago que foi ler o tema do mês de julho do Lolla. Rosa nos envia o seguinte diálogo extraído do livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll:

(Alice falando para o Gato de Cheshire)

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?” “Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contato que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande bastante.”

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Sobre Alice e seu autor

Lewis Carroll, pseudônimo usado por Charles Lutwidge Dodgson, professor de lógica e matemática da Christ Church College, escreveu esta que é uma das mais célebres obras de literatura infantil em 1865, na Inglaterra vitoriana. Reza a lenda que a história surgiu num passeio de barco em que o autor estava acompanhando o reitor da universidade, Henry Lidell e suas três filhinhas: Lorina, Edith e Alice. Depois de muita insistência das meninas, Lewis Carroll – que era um grande contador de histórias – inventou o que viria a ser o embrião da obra Alice no País das Maravilhas. Carroll era muito próximo da família e Alice, a época com 10 anos de idade, era a sua preferida dentre as filhas do reitor. Até hoje muito especula-se sobre a natureza da relação do autor e sua musa mirim. Possíveis atos de pedofilia, intenção de casar-se com Alice no futuro, uma paixão pela Lidell mais velha (que também era uma criança de treze anos) dentre outras hipóteses foram levantadas, mas nunca houve nenhuma prova contra Carroll ainda que, em certo momento, a família Lindell tenha se afastado definitivamente do autor.

Lewis Carroll era uma figura no mínimo dúbia: enquanto socialmente apresentava-se como um professor de matemática sério, racional e circunspecto, era também um exímio fotógrafo, dotado de uma uma criatividade riquíssima, capaz de criar toda a profusão de personagens, cenários e passagens do esquisito País das Maravilhas. Em 1871 o autor lançou o segundo livro intitulado “Alice através do Espelho”, também com uma simbologia abundante, dando sequência às aventuras de Alice.

Passados mais de 150 anos, a história da menina esperta e curiosa que cai num buraco ao perseguir o Coelho Branco continua a povoar o imaginário das crianças e a surpreender pelas inúmeras interpretações que possibilita. A professora Sandra Vasconcelos, em uma entrevista sobre a obra, explica que nela se encontram (e se contrastam) as duas “realidades” de Carroll: o mundo da lógica e das regras da era vitoriana e o universo da imaginação, da liberdade e do nonsense.

Alice (só) para crianças?

Apesar de ser considerado um livro infantil, o conteúdo é tão generoso em questões existenciais e filosóficas que é perfeitamente possível (se não indicada) a leitura do mesmo pelo público adulto, com direito a reflexões e aprofundamentos dignos de uma grande obra clássica. Virginia Woolf em seu ensaio sobre Lewis Carroll atesta com todas as letras que “É por esse motivo que as duas Alices não são livros para crianças; mas são os únicos livros em que nós nos tornamos crianças”. Dentre as inúmeras passagens que renderiam horas de meditação, uma das minhas preferidas é o dialogo da Alice com a Lagarta:

“Quem é você?” Perguntou a Lagarta.

Não era um começo de conversa muito animador. Alice respondeu, meio encabulada: “Eu… mal sei, Sir, neste exato momento… pelo menos eu sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então”.

Lewis Carroll tinha um jeito particular de levantar questões profundas em meio a situações aparentemente inofensivas. Alice desce por uma toca de coelho e conhece um mundo estranho que estava enterrado sob o solo. Enquanto pondera sobre o rumo ilógico dos acontecimentos, a menina também se pergunta sobre quem ela é e qual é o propósito de sua vida. Essas perguntas, contextualmente relevantes e instigantes, levam o leitor a questionar também sua existência e como ele se relaciona com o mundo em que vive. Justamente por isso não poderia deixar de falar sobre o elefante no meio da minha sala.

Sobre meus vários caminhos

É evidente que tudo é infinitamente mais claro e objetivo quando temos um rumo, quando sabemos em que direção seguir na vida. Até a falta de possibilidades – quando não limitante – pode funcionar como um funil na hora de optarmos pelo caminho certo. Acredito que são raras as pessoas capazes de vislumbrar precocemente um destino, um objetivo final, mas tendo um norte, já se tem muita coisa. Eu tinha um norte, o chamado aconteceu lá atrás e ainda assim eu resolvi ignorá-lo.

O grande problema com uma trajetória errática é que ela te faz sentir um constante fracasso, ainda que você tenha realizado muito. Parece que nada, nenhum direcionamento que você toma te leva a construir algo verdadeiramente valoroso. Steve Jobs, em um icônico discurso para formandos da Universidade de Stanford (Aqui eu preciso registrar o meu muito obrigada ao meu marido que, além de ser o meu mais assíduo leitor, é minha fonte principal de trocas de idéias, bate-papos filosóficos e divagações. Foi ele que me mostrou esse discurso), contou um pouco sobre seus muitos desvios e dúvidas enquanto estudante universitário e o papel que um curso de caligrafia da faculdade – aparentemente sem nenhuma utilidade prática e feito num momento em que ele se sentia completamente perdido – foi primordial para o moldar, 10 anos depois, o conceito da Apple. Segundo Steve Jobs, é impossível conectarmos os pontos quando olhamos para o futuro, mas é perfeitamente possível conectá-los olhando para trás e percebendo que nem tudo o que fizemos foi em vão. Neste exato momento, “nel mezzo del cammin della mia vita” (Dante eterno!), estou conectando os pontos e buscando um sentido na história que escrevi até aqui.

“Again, you can’t connect the dots looking forward; you can only connect them looking backward. So you have to trust that the dots will somehow connect in your future. You have to trust in something — your gut, destiny, life, karma, whatever. This approach has never let me down, and it has made all the difference in my life.” – Steve Jobs

Hoje, depois de todas os caminhos que eu já trilhei, me encontro terminando esse texto com um nó na garganta e o coração em paz. Primeiro, pelo prazer inenarrável e pela sensação de plenitude que a escrita me traz. Eu amo as palavras, a elas me dedico com excelência e paixão. Segundo, pela chance de abordar um assunto que me é tão caro e essencial: a literatura e seu poder único de transformar as pessoas – como é o caso da obra de Lewis Carroll. E terceiro, porque encarar de frente o elefante no meio da sala e falar abertamente sobre ele já demonstra que, ainda que o destino final não esteja definido, eu reencontrei o meu norte. Obrigada, Lolla, pela oportunidade.

 

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by Maria Claudia Cassou

Curitibana, mãe, advogada, e amante inveterada da literatura. Acredita que a vida pode ser mais rica com livros e mais bela com flores.

4 Comments
  1. É simplesmente lindo e gratificante; não deixando de lado o imenso orgulho de ser seu pai; poder viajar pelas palavras dos seus textos, tendo a certeza de estar diante da sensibilidade e grandiosidade de uma futura escritora.
    Te amo muito minha filha !!!

  2. Esse texto me levou para tantos lugares, para a minha infância onde já sabia o que eu queria. Apesar de ter alcançado aquelas coisas que sonhava – arquitetura e arte – apesar de ser feliz com o que faço, leio o seu texto e penso naquela frase do livro Alice através do Espelho – O tempo vale mil libras o minuto – e se tivesse sido tudo diferente na minha vida? Ainda assim valeria mil libras o minuto, cada tempo. Como você, de alguma maneira, estaria fazendo a vida valer. Parabéns por esse texto e por ter se encontrado nas letras.

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